10 momentos memoráveis do Brasil nos Jogos Olímpicos

No Dia Olímpico, a um mês de Tóquio 2020 em 2021, o Olympics.com reconta cenas do esporte Olímpico brasileiro que juntaram todos em frente à TV.

Sheila Vieira
Foto: 2016 Getty Images

Momentos memoráveis nem sempre são vitórias. Também são pratas e bronzes que tiveram gosto de ouro. Pode ser uma partida de quartas de final que ainda é lembrada nove anos depois ou histórias de superação que reinventaram carreiras. Ou seja, um dia em que você lembra exatamente onde estava quando aconteceu e consegue recontar como se fosse ontem.

Como o Brasil tem muito mais que 10 cenas Olímpicas históricas, inevitavelmente alguns dos maiores títulos Olímpicos do país ficaram de fora. Isso que é tão especial dos Jogos Olímpicos: cada pessoa cultiva as suas melhores memórias! Confira a lista do Olympics.com:

A superação de Vanderlei Cordeiro de Lima em Atenas 2004

A esperança de uma vitória inédita, um momento chocante, e uma demonstração de espírito Olímpico que se tornou maior que uma medalha de ouro. A maratona de Vanderlei Cordeiro de Lima em Atenas 2004 foi de filme de terror a filme de inspiração.

Apesar de chegar à Grécia em boa forma, o paranaense não era considerado favorito para a prova. Mesmo assim, Vanderlei liderava por mais de 25 segundos de diferença para o segundo colocado faltando 7km para a chegada. Neste momento, o impensável aconteceu. O padre irlandês Cornelius Horan invadiu a pista e empurrou Vanderlei em direção ao público. O torcedor grego Polyvios Kossivas heroicamente desvencilhou Vanderlei da confusão e permitiu que o brasileiro continuasse a prova.

Extremamente abalado, Vanderlei foi ultrapassado pelo italiano Stefano Baldini e pelo americano Meb Keflezighi. Todos esperavam que ele chegasse ao estádio Panathinaiko frustrado por ter conquistado ‘apenas’ o bronze, mas o brasileiro terminou a prova sorrindo, com os braços abertos e ovacionado pelo público.

Vanderlei recebeu a medalha Pierre de Coubertin por representar os valores Olímpicos. Na Cerimônia de Abertura da Rio 2016, ele foi o responsável por acender a pira no Maracanã. Vanderlei pode não ser um campeão Olímpico, mas é uma lenda Olímpica.

O ouro de César Cielo em Beijing 2008

Grandes nadadores como Maria Lenk, Ricardo Prado e Gustavo Borges tornaram a natação um dos esportes mais queridos pelos brasileiros. Por isso, a expectativa para o primeiro ouro do país no esporte era gigantesca e trazia consigo uma grande pressão para os nadadores do país. Com três ouros nos Jogos Pan-Americanos de 2007, esse momento parecia estar chegando com César Cielo Filho em Beijing 2008. Será que ele conseguiria repetir o sucesso diante dos melhores do mundo?

Cesar Cielo Filho (BRA) celebra a vitória nos 50m livre na natação nos Jogos Olímpicos Beijing 2008.
Foto: 2008 Getty Images

Nos 100m livre, Cielo já deixou o seu recado, conquistando a medalha de bronze. Mas o nadador ainda tinha mais gás no tanque, quebrando o recorde Olímpico dos 50m livre já na semifinal se colocando como favorito para a final. Cielo lidou com a pressão da melhor maneira que um campeão poderia fazer, superando novamente o recorde Olímpico e enfim desentalando o grito de “é campeão” dos brasileiros fãs de natação. Cielo certamente não foi o único a chorar muito durante aquele pódio.

O ouro de Maurren Maggi em Beijing 2008

A história de Maurren Maggi é de como o sonho Olímpico nunca morre. A saltadora chegou a Sydney 2000 como uma das favoritas no salto em distância, mas se contundiu logo no primeiro salto e teve que abandonar a competição sob lágrimas. Novamente em ótima forma antes de Atenas 2004, Maggi foi suspensa por dois anos devido a um teste positivo para uma substância proibida. A saltadora então decidiu dar um tempo do esporte e se tornou mãe.

Mesmo assim, Maggi sabia que ainda poderia ser uma das melhores saltadoras do mundo. Ela se preparou para disputar Beijing 2008 aos 32 anos de idade. Logo na primeira tentativa da final, a brasileira acertou um salto perfeito, usando toda a tábua, e atingindo 7,04 m. Quando o ouro parecia ganho, a russa Tatyana Lebedeva também encaixou um salto impecável. Por um momento, Maggi pensou que a vitória havia escapado. Então o número 7,03 m apareceu no placar para Lebedeva, um centímetro a menos do que a marca da brasileira. E assim o Brasil conquistou seu primeiro ouro em uma prova individual feminina.

Maurren Higa Maggi (BRA) comemora após vencer a prova do salto em distância em Beijing 2008.
Foto: 2008 Getty Images

A vitória da seleção feminina de vôlei contra a Rússia em Londres 2012

Era possível fazer uma lista como esta só com momentos do vôlei. Afinal, o Brasil tem três ouros no masculino e dois no feminino, além da pioneira geração de prata de LA 1984. Porém, um dos jogos mais memoráveis do Brasil nos Jogos Olímpicos aconteceu nas quartas de final.

Apesar do ouro em Beijing 2008, a seleção feminina de vôlei do Brasil ainda estava ‘engasgada’ com a Rússia. Lideradas por Gamova e Sokolova, as russas haviam imposto às brasileiras derrotas dramáticas em Atenas e nos Mundiais de 2006 e 2010. Mentalmente, a seleção brasileira sentia que a disputa nas quartas de Londres 2012 poderia terminar em mais uma desilusão.

A partida foi acirradíssima desde o primeiro set. Como de costume, o tiebreak decidiria as semifinalistas. O Brasil começou melhor e chegou a abrir 10-7, mas as russas empataram e tiveram seis match points. Com uma atuação irretocável de Sheilla Castro, o Brasil salvou todos e fechou a partida por 21-19, com direito a peixinho de José Roberto Guimarães. Essa partida mostrou por que não há outro país mais apaixonado pelo vôlei do que o Brasil.

O ouro de Thiago Braz na Rio 2016

Quem poderia imaginar que uma noite de muita chuva no Rio de Janeiro terminaria com um dos momentos mais mágicos do Brasil nos Jogos Olímpicos? Na final do salto com vara, os holofotes não estavam inicialmente em Thiago Braz. Seus resultados anteriores eram considerados inconsistentes, e a prova tinha um grande favorito, o francês Renaud Lavillenie. No entanto, Braz foi extremamente sólido nos primeiros saltos, permanecendo na disputa pelo ouro com Lavillenie e o americano Sam Kendricks.

Mesmo assim, tudo indicava que Lavillenie estava com a vantagem. Ele conseguiu saltar 5,98m, uma marca que Braz jamais havia feito. Com o público ao seu lado, Braz dobrou a aposta e subiu o sarrafo para 6,03m. Mais do que nunca, a ousadia deu certo: o brasileiro bateu o recorde Olímpico, levando o encharcado público à loucura. Frustrado com as vaias dos torcedores, Lavillenie tentou 6,08m e não passou, sacramentando o primeiro ouro do atletismo masculino do Brasil desde Joaquim Cruz em LA 1984.

A final brasileira feminina no vôlei de praia em Atlanta 1996

O primeiro ouro do Brasil nos Jogos Olímpicos foi conquistado na Antuérpia 1920, por Guilherme Paraense no tiro esportivo. Porém, no início de Atlanta 1996, o país ainda esperava por suas primeiras campeãs Olímpicas. A entrada do vôlei de praia no programa Olímpico deu grande esperança aos brasileiros, já que várias ex-jogadoras de vôlei de quadra estavam tendo sucesso na modalidade praiana desenvolvida nos EUA.

A experiente Jacqueline Silva recrutou Sandra Pires para treinar nos EUA, em um momento de pouco apoio financeiro. Para a felicidade do Brasil, 'Jackie' e Sandra não só foram à final, como enfrentaram Adriana Samuel e Mônica Rodrigues, garantindo o ouro e a prata para o país. Sem a tensão de saber se o Brasil iria ganhar ou perder, a partida foi uma grande celebração verde-amarela. O feito inédito das atletas foi devidamente reconhecido na época. As quatro finalistas desfilaram em carro de bombeiros no Brasil, imortalizadas como um exemplo para as jovens atletas do país.

Jacqueline Silva e Sandra Pires se cumprimentam na final feminina do vôlei de praia em Atlanta 1996.
Foto: Bongarts

A prata no revezamento 4x100m masculino em Sydney 2000

Quatro nomes que soam familiares até hoje: Claudinei Quirino, André Domingos, Vicente Lenílson e Edson Luciano Ribeiro. Em uma prova que os EUA competiam em outro patamar, a prata no revezamento 4x100 m masculino foi encarada como um ouro. A grande rivalidade entre os velocistas brasileiros, em vez de prejudicar a equipe, acabou fazendo com que todos se superassem para desbancar Cuba na prova.

Claudio Roberto Sousa, que participou da semifinal da competição, acabou voltando da Austrália sem medalha por um erro de logística. Em 2020, o corredor enfim recebeu sua merecida prata Olímpica.

Claudinei Quirino, Andre Domingos, Claudio Roberto Sousa, Vicente Lenilson and Edson Luciano Ribeiro, posam após Claudio receber sua medalha de prata de Sydney 2000, em dezembro de 2020. 
Foto: All rights reserved

O ouro de Rafaela Silva na Rio 2016

Nos Jogos disputados no Rio de Janeiro, poucas vitórias representaram tanto os cariocas como o ouro de Rafaela Silva na categoria -57 kg do judô. Criada na Cidade de Deus, Silva entrou aos sete anos no Instituto Reação, de Flávio Canto. Sua ascensão foi meteórica, mas uma desclassificação na segunda rodada em Londres 2012 virou seu mundo de cabeça para baixo. Rafaela recebeu ataques racistas na internet e precisou recomeçar. Na Rio 2016, ela deu a resposta, com o ouro em sua cidade natal em um dos esportes mais tradicionais do Brasil.

O ouro de Joaquim Cruz em LA 1984

Uma arrancada incontestável. Os metros finais de Joaquim Cruz, com seu uniforme azul, na prova dos 800m em LA 1984 se tornaram uma das cenas mais assistidas do esporte brasileiro. Inicialmente disputando passada a passada com os outros favoritos, Cruz, na época com 21 anos, disparou como um foguete nos últimos 100 metros. Os narradores brasileiros até soltaram o grito da vitória antes da chegada. Este foi o primeiro ouro do país no atletismo desde o bicampeonato do lendário Adhemar Ferreira da Silva no salto triplo (Helsinque 1952 e Melbourne 1956).

Hypolito e Nory no pódio do solo na Rio 2016

“Na primeira vez, eu caí de bunda. Na segunda, de cara. Hoje, caí de pé”. A emblemática declaração de Diego Hypolito à TV Globo após conquistar a prata no solo na Rio 2016 é um excelente resumo da importância de sua jornada até aquele dia. Hypolito sempre foi uma grande esperança de medalha Olímpica na ginástica, mas sofreu quedas nos dois primeiros Jogos que disputou. O ginasta passou a ser alvo de piadas e visto como um atleta que ‘amarelava’ nos momentos decisivos.

Na Rio 2016, Hypolito não só caiu de pé, como também dividiu o pódio com outro brasileiro, Arthur Nory, que surpreendeu ao conquistar o bronze. Não foi o melhor resultado do Brasil na ginástica (Arthur Zanetti levou o ouro nas argolas em Londres 2012), mas foi um momento de reconciliação de Hypolito com o público brasileiro, além de uma passagem de bastão para um ginasta mais novo. Um verdadeiro final feliz.