Tóquio 2020: Tandara é exemplo de sucesso dos desafios colocados pela maternidade

Após pausa nas carreiras para a maternidade, há atletas que chegam a Tóquio 2020 de olho nas medalhas. Tandara Caixeta e Rebecca Cavalcanti são alguns exemplos de superação Olímpica.

Gonçalo Moreira
Foto: Photo by Zhong Zhi/Getty Images

Allyson Felix é uma lenda do atletismo e se prepara para a quinta presença em Jogos Olímpicos, talvez a mais especial da carreira da seis vezes campeã Olímpica, já que é primeira classificação após ter sido mãe, em novembro de 2018, através de uma cesariana de emergência.

A pequena Cammy viu desde a plateia como a sprinter ganhava os 400m nas seletivas norte-americana com o tempo de 50,88 – melhor marca de Allyson Felix desde 2017. Em Eugene, Oregon, a prova de 400m foi um duelo de Supermães, já que no 2º lugar ficou Quanera Hayes, estreante em Jogos Olímpicos também após ter sido mãe.

Com 35 anos e após se ter tornado um ícone na velocidade feminina quando aos 18 conquistou a medalha de prata nos 200m, em Atenas 2004, Allyson Felix se prepara para a despedida dos Jogos Olímpicos em Tóquio 2020, depois de uma participação na Rio 2016 que acabou com a prata nos 400m atrás de Shaunae Miller das Bahamas e o ouro no revezamento 4 x 100m.

“Sabia que seriam as minhas últimas seletivas Olímpicas. Ter minha filha aqui foi a cereja no topo do bolo” – Allyson Felix.

Vôlei brasileiro dá o exemplo

Tanto na quadra como na praia, o vôlei brasileiro dá o exemplo. Na seleção brasileira feminina de vôlei, Tandara Caixeta vai tentar o terceiro ouro para o time feminino mantendo sempre a filha Maria Clara no pensamento. A campeã olímpica em Londres 2012 foi mãe a menos de um ano da Rio 2016, mas regressou em pleno e tem estado em forma na Liga das Nações onde o Brasil encerrou a primeira fase com 13 vitórias em 15 jogos.

A oposta tem liderado o ataque do time de Zé Roberto Guimarães e espera colecionar mais uma medalha Olímpica nesse ano de 2021.

“Na minha vida pessoal, a Maria Clara é minha maior medalha. Com certeza. O voleibol me trouxe meu marido, me trouxe a minha filha. Fico muito feliz e sou completamente realizada com isso. Era o que eu sempre quis na minha vida. Além disso, tenho uma medalha olímpica de Londres 2012. Aquele é o ápice de minha performance, do meu trabalho e fico realizada também, com a minha carreira, com certeza” – Tandara Caixeta.

No vôlei de praia a cearense Rebecca Cavalcante, que em Tóquio 2020 faz dupla com Ana Patrícia Ramos, é a prova de que com persistência tudo é possível. O Brasil conta com dois times fortes na competição feminina, que acontece em 2021, onde Ágatha e Duda são relacionadas com as medalhas.

Rebecca Cavalcante conseguiu a classificação para Tóquio 2020 após ter aparecido no circuito por acaso. Uma lesão com 13 anos a levou da quadra para a praia, mas demorou quase uma década até encontrar a dupla perfeita ao lado de Ana Patrícia Ramos, outro caso para quem o vôlei de praia não foi amor à primeira vista já que o coração pedia jogar futsal.

Com várias conquistas prometedoras, Rebecca Cavalcante pausou uma carreira meteórica, em 2013, para ser mãe, sendo capaz de regressar ao mais alto nível e aspirar a um bom resultado em Tóquio 2020. Rebecca Cavalcante e Ana Patrícia Ramos venceram a edição de 2019 do SuperPraia, etapa final do Circuito Brasileiro, ultrapassaram lesões e por isso são exemplos de superação para seguir nos Jogos Olímpicos.

Ana Patrícia Ramos e Rebecca Cavalcante
Foto: Photo by Kiyoshi Ota/Getty Images

Sania Mirza lidera o caminho na Índia

A lenda do esporte indiano Sania Mirza se prepara para os quartos Jogos Olímpicos. O histórico da jogadora de Bombaim é incrível:

  • 42 títulos em duplas
  • 91 semanas como líder do ranking mundial
  • Primeira mulher da Índia a vencer um título WT, em Hyderabad, em 2005
  • Pioneira do tênis indiano em torneios do grand slam vencendo em duplas Wimbledon, em 2015

A lista de feitos de Sania Mirza é longa, mas nela encontramos um parêntesis entre 2017 e 2020, quando a tenista pausou a carreira para dar à luz o filho Izhaan. Na volta não perdeu tempo e venceu o Hobart International jogando com Nadiia Kichenok.

Em Tóquio 2020, que acontece em 2021, Sania Mirza vai jogar ao lado de Ankita Raina no Ariake Tennis Park, sede do torneio Olímpico de tênis, onde venceu o Pan Pacific Open em três ocasiões (2013, 2014 e 2016).

Na Rio 2016 a medalha esteve perto em duplas mistas. Sania Mirza e Rohan Bopanna falharam o bronze após derrota contra os checos Lucie Hradecka e Radek Stepanek. O objetivo em Tóquio 2020 é superar a barreira da 2ª ronda em duplas femininas, algo que a indiana nunca conseguiu. Com ou sem medalha nos Jogos, no que aos direitos da mulher diz respeito, Sania Mirza lidera o caminho na Índia.

"A questão não deveria ser porquê uma mãe sai de casa para perseguir seus sonhos. A questão deveria ser: porque não?" – Sania Mirza.

Lizzie Deignan quer melhorar Londres 2012

O ciclismo de estrada é um esporte duro, que requer muitas horas de dedicação diária, concentrações em altitude constantes e longos períodos de afastamento da família. Visto assim ninguém diria que é compatível com a maternidade, uma teoria desafiada por cada vez mais mulheres.

A britânica foi medalha de prata em Londres 2012 na prova de fundo. Em Tóquio 2020, Lizzie Deignan quer melhorar Londres 2012 e chegar ao ouro, colocando o evento como o principal objetivo do ano. O difícil percurso da prova de estrada favorece as aspirações da capitã do time da Grã-Bretanha, que em 2018 foi mãe de Orla, espetadora assídua das provas de Lizzie na companhia do pai, Philip Deignan, ciclista profissional retirado em 2018.

Desde a pausa na carreira, Lizzie Deignan não demorou muito para voltar à elite do ciclismo de estrada, com vitórias na La Course by Le Tour de France, Liège-Bastogne-Liège e já em 2021 na primeira edição da Volta à Suíça.

Num esporte onde apenas desde 2020 há um salário mínimo para as mulheres ciclistas, a equipe de Lizzie Deignan, a Trek-Segafredo, anunciou no início do ano salários mínimos iguais para homens e mulheres. A medida vai além da ambiciosa política da União Ciclista Internacional, que desde 2020 tornou obrigatório para as equipes profissionais femininas que as atletas tenham direito a três meses de licença de maternidade com salário completo, mais cinco meses a 50 por cento, além de planos de saúde adequados a um esporte de elevado risco como o ciclismo. Uma revolução num ciclismo de estrada tradicionalmente orientado para as prioridades do pelotão masculino.

"Porque a Orla era a prioridade e o seu sono não tinha entrado no ritmo, na realidade foi a Orla quem foi minha técnica, ditando o que eu podia e não podia fazer. E isso foi provavelmente bom porque me impediu de fazer demasiado. Também por esse motivo escolhi falar em público sobre o tema e falar sobre o que estou fazendo porque não tinha exemplos. Procurei por informação e simplesmente não há informação sobre isso" – Lizzie Deignan.