Irmãs Costa: as gêmeas maranhenses do rugby brasileiro

Thalia e Thalita estão entre as Yaras convocadas para os Jogos de Tóquio 2020 em 2021

Virgílio Franceschi Neto
Foto: Rafael Bello/COB

Thalia começou no atletismo e há pouco mais de 4 anos conheceu o Rugby. Participou de um treino, gostou e passou a jogar. Meses mais tarde foi a vez da irmã Thalita apaixonar-se pela bola oval. Tal como no esporte, Thalia veio mais cedo ao mundo por 2 minutos e, assim, as gêmeas ludovicenses seguiram na modalidade em uma trajetória de grandes desafios, em que o apoio da família tem sido fundamental.

Permanecem mais do que nunca unidas, desta vez na seleção brasileira feminina de rugby sevens, conhecida como "as Yaras", ambas convocadas para os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 em 2021. Realizam um sonho. A mãe é a inspiração. Querem proporcionar orgulho à família e querem ver o rugby do Brasil no topo. O Olympics.com conversou com Thalia e Thalita às vésperas de Tóquio 2020.

Nascemos juntas. Vamos morrer juntas.

- Thalia Costa

Thalia

São Luís é a cidade capital do estado do Maranhão, localizada em uma ilha e única do Brasil fundada pelos franceses, em 1612. Está distante dos principais centros econômicos e esportivos do país, tendo o Rugby chegado bem tarde por lá, com o primeiro clube fundado apenas em 2011, a AMARU (Associação Maranhão Rugby). Foi lá que Thalia - a que iniciou primeiro - começou a jogar.

Outrora do atletismo, era especialista em provas de 100 e 200 metros, até que um dia o amigo Leonardo fez o convite para conhecer aquele - em um primeiro momento - curioso esporte da bola oval. Sem resultados no atletismo e depois de muita insistência do amigo e para matar a curiosidade, foi ao treino da AMARU em 17 de fevereiro de 2017.

O resultado: paixão à primeira vista.

"Nunca tinha tido contato com um esporte coletivo. Um pouco no vôlei, mas bem pouco. O que me chamou a atenção para o rugby foi a questão dos valores, as pessoas, o acolhimento do time, como se fosse realmente uma família".

- Thalia, sobre o primeiro contato com o rugby

No entanto a relação com a AMARU foi breve. Ainda em 2017, em um torneio de beach rugby (rugby de praia), foi convidada pelo treinador Carlos Marvel a fazer parte da equipe do Delta, da cidade de Teresina, capital do estado vizinho do Piauí, equipe esta que jogava os campeonatos nacionais com mais frequência. Passou a atuar com o time piauiense, mas surgiu um convite de fazer um sonhado curso superior em Pernambuco (Recife), com bolsa de estudos, desde que competisse pela equipe de atletismo da universidade, o que a fez pensar. No entanto, o treinador Marvel pediu para que considerasse o rugby por conta do seu talento, do futuro que poderia se abrir para ela.

"Comecei a refletir se queria ir para Recife, se era aquela vida que queria para mim. E certa vez me dei conta que queria o rugby, até mesmo porque tentei no atletismo e não havia dado certo. Me permiti a algo novo, que foi o rugby".

- Thalia Costa, sobre quando teve que optar para seguir em uma modalidade

E o futuro se abriu. Tudo aconteceu muito rapidamente e, observada por todo o rugby do Brasil nas atuações pelo Delta em torneios nacionais, em 2018 surgiu o convite para Thalia fazer parte da seleção brasileira feminina de rugby sevens, que tem os treinamentos centralizados em São Paulo. Era a primeira das duas que se mudava para a capital paulista.

Thalita

Influenciada pela irmã 2 minutos mais velha, Thalita chegou no rugby 6 meses depois de Thalia, em agosto de 2017. No entanto, em uma história semelhante, o convite para atuar em Teresina não demorou para surgir e ela passou a defender o Delta. As viagens de São Luís para Teresina passaram a ser bem mais frequentes e assim foi durante toda a temporada de 2018.

"Nosso treinador (Carlos Marvel) sempre ia lá em casa, conversava com a nossa mãe, deixava tudo muito claro, então eu ia para o fim-de-semana e voltava na segunda-feira, nunca houve problemas".

- Thalita Costa, sobre a relação do antigo treinador com a família

O convite para fazer parte do núcleo da seleção brasileira feminina de rugby sevens veio no final de 2018. No começo de 2019 já estava integrada ao grupo, de maneira permanente, em São Paulo. Era, com isso, a segunda das irmãs que se mudava para a capital paulista. Para ela, o principal obstáculo é a distância da família. Há horas em que a saudade bate forte. O silêncio e a introversão acabam sendo inevitáveis. No entanto, a presença da irmã e a conexão com a religião se fazem muito importantes, ajudam a passar por esses momentos que hora ou outra aparecem e que não consegue lidar sozinha. Quando perguntada sobre uma frase, um texto que a inspira, ela não hesita e menciona uma passagem da Bíblia:

"Josué, capítulo 1, versículo 9: Não fui eu que ordenei a você? Seja forte e corajoso! Não se apavore nem desanime, pois o Senhor, o seu Deus, estará com você por onde você andar".

- Thalita Costa, sobre uma frase ou texto inspirador.

As gêmeas das Yaras

Já tivemos irmãs e irmãs que vestiram as camisas das seleções do Brasil, quer seja na equipe feminina (as Yaras), quer seja na equipe masculina (os Tupis). Alguns exemplos são as irmãs Futuro (Cris e Beatriz "Baby") e os irmãos Duque (Lucas e Moisés). Atualmente entre os homens temos os Sancery, também gêmeos, como as irmãs Costa.

"A preocupação é em dobro. Quando estou em campo, fico preocupada com a minha performance, mas quando não estou, me preocupo por ela".

- Thalia Costa, sobre jogar com a irmã pelas Yaras

Para ambas, é um grande privilégio jogar uma ao lado da outra, que se conhecem e se amam desde sempre. Thalia destaca em Thalita a força. Já Thalita tem Thalia como grande exemplo, uma vez que sempre se dispôs a lutar e correr atrás do que queria. Estas características fizeram com que o antigo treinador, Carlos Marvel, de Teresina, desse a ela a alcunha de Mulan, personagem do filme de animação que fala sobre a guerreira que se pôs a lutar pelos familiares.

"Thalia é minha inspiração. Sempre a vi correndo atrás do que queria. Ter a oportunidade de viver este sonho de disputar os Jogos Olímpicos com ela, é a minha maior realização".

- Thalita Costa, sobre a irmã

Família

Para as irmãs, a família é o porto seguro e nunca faltou apoio. Por Thalia estar no esporte há muito tempo, os parentes habituaram-se à rotina das distâncias e viagens de longa duração. É comum os familiares e amigos organizarem festas e confraternizações quando elas voltam para São Luís de férias ou depois de longas digressões. Em uma das recepções, uma pessoa próxima fez uma faixa com a seguinte frase:

"Mais real do que fazer da vida um sonho, é fazer de um sonho, realidade".

Frase colocada em uma faixa durante recepção às irmãs Costa, em São Luís (MA)

A mãe, Ivanilde, nunca impediu as filhas de seguirem os sonhos, entende os compromissos que elas têm e já compreende o jogo. Claro que quando Thalita mudou-se para São Paulo, ficou mais difícil, porque elas eram muito caseiras. Entretanto os telefonemas por vídeo e as redes sociais são maneiras dos dois lados (o que está na capital paulista e o que está na capital maranhense) enganarem a saudade. É o que faz a sobrinha, Hyana Ayumi, que diz sentir muito orgulho quando vê os vídeos dos lances das tias pelas Yaras, como o abaixo:

Ademais, uma pessoa mencionada quando perguntadas de alguém que havia sido importante para as suas carreiras, elas não se esquecem do padrasto, Geovanito Lemos, que proporcionou muito para que elas alcançassem onde hoje estão. Thalia, por exemplo, lembra das chuteiras dadas por ele.

O futuro

O futuro muito reserva para as irmãs Costa, sem dúvida alguma. Com apenas 24 anos de idade, recém completados no dia 30 de maio, há muito pela frente. Thalia tem vontade de disputar uma Copa do Mundo de rugby sevens, mas já olha para fora dos gramados: estuda para em breve se formar em fisioterapia, profissão que ela se encanta.

"A idade vai avançando e precisamos ter outras coisas em mente para fazer quando for para parar de jogar".

Thalia Costa, quando perguntada sobre o futuro.

Thalita, também estudante - mas de educação física -, já não olha tanto para fora de campo como a irmã. Quer jogar em alto nível por no mínimo 10 anos. Pretende adquirir bastante experiência e conhecimento dentro do rugby de rendimento para ajudar a desenvolver o esporte.

Aliás, desenvolver esta modalidade esportiva no Brasil. Neste ponto as irmãs coincidem.

Ambas querem que o rugby cresça e farão o que puderem para que isso aconteça. Elas têm a consciência da importância que possuem em inspirar outras pessoas por conta da experiência e trajetória. Querem sobretudo que o rugby seja o berço do esporte para todos os brasileiros.

Querem colocar o rugby do Brasil no topo. Não importa quando, com elas em campo ou não. Na vontade e no tempo de Deus, que está à frente, como elas mesmas dizem.