Pedro Pichardo: 'O Mundial é o título que me falta'

Em trajetória caracterizada pela resiliência, perseverança e compromisso com os objetivos, tornou-se campeão Olímpico no salto triplo pelo país que o acolheu, Portugal. Recuperado de recente lesão, falou em entrevista para o Olympics.com estar pronto para o Campeonato Mundial de Atletismo 2022 em busca da inédita conquista.

Virgilio Franceschi Neto
Foto: 2021 Getty Images

Cubano de nascimento, português de coração. Em Cuba cresceu e deu os primeiros saltos. Projetou-se no esporte. Portugal o adotou e proporcionou as condições para para que ele pudesse realizar sonho do ouro em Jogos, conquistado no salto triplo de Tóquio 2020.

O desafio sempre esteve presente em sua vida, desde muito novo. Entre os amigos do bairro da sua natal Santiago de Cuba, para saber quem era o primeiro no esporte e na escola. Depois, nos saltos, para mostrar que era o melhor. Fora das pistas, para mostrar quem o podia treinar para chegar onde queria. Anos mais tarde, para mostrar do que era capaz: a glória Olímpica.

Aos 29 anos, Pedro Pablo Pichardo é parte de um seleto grupo de seis saltadores na modalidade a ter ultrapassado a marca de 18 metros (18,08m obtido em maio de 2015). Além disso, está há quase uma década no topo da modalidade. Quer ainda mais fazer história e consolidar-se nessa história. "Trabalhamos para isso, para deixar uma marca no país e no mundo", comentou.

Escolheu Portugal e foi responsável em fazer-se ouvir "A Portuguesa" por todo o mundo nos Jogos de Tóquio. Rendeu-lhe respeito e é eternamente grato. "Portugal é minha casa. É o meu país."

Assim como Fernando Pessoa descreve Portugal em uma de suas obras, em "fitar o futuro", Pichardo pensa igual. O que foi, passou. É preciso ir em frente e olhar adiante. É assim que encara a vida, é assim que chega para o Campeonato Mundial de Atletismo 2022.

Um título que lhe falta, inclusive.

Às vésperas do Mundial, ele conversou com exclusividade para o Olympics.com sobre sua trajetória, sua evolução no esporte, o título em Tóquio e até onde quer chegar na carreira, quer seja em idade ou em metros.

Pedro Pichardo, Lazaro Martínez (CUB) e Donald Scott (USA), formam o pódio do salto triplo no Mundial Indoor de Atletismo realizado em Belgrado, em março de 2022.
Foto: 2022 Getty Images

Pichardo em 2022

Quase um ano depois de Tóquio 2020, Pichardo diz sentir-se bem e pronto para o Mundial de Eugene, no Oregon (Estados Unidos). "O ano tem sido bom, mas em termos de marcas queria ter tido melhores resultados." Está recuperado de uma lesão nos tendões, que sofreu em março, em plena final do Mundial Indoor, em Belgrado. Sequer completou todos os saltos que teria direito. Mesmo assim, terminou com a medalha de prata. "Não fiquei feliz (com o resultado e por não conseguir realizar os saltos). Saí da prova e mal consegui andar", disse.

RELEMBRE: Pedro Pichardo é prata no Mundial Indoor de Atletismo em Belgrado

Uma lesão que o deixou preocupado e o afastou das pistas por meses. Voltou no 'meeting' de Montreuil (França), no início de junho. Ficou em segundo lugar, com 17,18m. "Em Montreuil, senti que o meu pé estava melhor", lembra. Segurança suficiente para semanas depois ir ao pódio na etapa de Paris da Liga Diamante, onde fez a terceira melhor marca, de 17,49m.

A expectativa para o Mundial do Oregon

Pichardo não esconde a ansiedade para este Mundial, em Eugene, mas ao mesmo tempo não está incomodado com o período em que passou longe das pistas por conta da lesão. "Graças a Deus voltei rapidamente à forma. Só espero que as coisas corram bem para trazer a medalha de ouro", refletiu.

Na edição do Mundial de Atletismo de Doha, em 2019, seu primeiro por Portugal, ele terminou em quarto lugar. Depois do Mundial de Eugene, partirá para a disputa do Europeu, entre 15 e 21 de agosto, em Munique (Alemanha).

Conquistas que ainda não constam no palmarés de Pichardo. "Imagina ganhar o Mundial e os Europeus? Seria ótimo...são os títulos que faltam na minha carreira. Seria um sonho!"

Perguntado sobre de que depende conquistar o ouro em Mundiais, mencionou o clima, o ambiente e a atmosfera. Lembrou-se de Tóquio, quando foi ao topo do pódio, mas não havia público. "Competir sem torcida foi uma experiência ruim...eu gosto das palmas."

RELEMBRE: Pedro Pichardo campeão Olímpico do salto triplo em Tóquio 2020

Uma chance para superar o recorde

Em Eugene será diferente. Com fãs do atletismo por perto para incentivá-lo, além do ouro ele terá uma chance de superar um recorde absoluto que dura desde 1995, de 18,29m, do britânico Jonathan Edwards.

Para alcançar tal feito, voltou a mencionar os mesmos fatores, porém foi mais específico: "O primeiro é estar bem fisicamente. Depois a cabeça tem que acompanhar o estado físico e o corpo, depois o ambiente. Não pode estar muito calor, nem muito frio. Sem vento também...e a pista tem que ajudar."

Um recorde que ele sabe poder vir a qualquer momento. Está pronto para fazer o que for preciso. "Estamos a trabalhar para passar os 18,30m pelo menos. Estamos a trabalhar para que isso aconteça", reforçou. Ainda acrescentou: "Pelo menos acho que é possível chegar até os 18,50m."

Pedro Pichardo (POR) ao lado do pai e treinador, Jorge Pichardo, na final do salto triplo do Campeonato Europeu de Atletismo, em maio de 2021, em Chorzow, Polônia.

O pai treinador: Jorge Pichardo

Em busca dos títulos, ao seu lado sempre esteve seu pai e treinador, Jorge Pichardo. Licenciado em esporte, deixou a carreira de atleta por conta de uma lesão no joelho e é grande responsável pelo sucesso do filho. "Tudo o que atingi no esporte foi pelo meu pai. Ele lutou muito por mim", confessou Pedro.

Aos risos, acrescentou sobre o papel do pai quando pedido para descrever o estilo de seu salto: "Meu pai estudou todos os estilos de saltadores, escolas russa, norte-americana, inglesa e tentou fazer uma mistura de tudo. Não consigo te dizer um país específico."

Jorge sempre acreditou no filho e nunca duvidou do que era melhor para ele. Durante quatro anos Pedro viajou 18 horas de trem por 900 quilômetros para competir em Havana. Ganhava de todos e retornava a Santiago de Cuba, não apenas por ser onde vivia, mas para retornar os treinos ao lado do pai.

Depois que passou a viver em Havana, não abriu mão do pai treinador, que se hospedava na casa de um tio na capital para ajudar o filho às escondidas. Era o ano de 2013 e desse modo foi a preparação para a vitória com 17,58m na etapa de Lausanne (Suíça) da Liga Diamante, e a prata no Mundial Júnior, em Moscou.

Uma preparação desgastante e incômoda para Pedro e sua carreira no atletismo. Tinha tudo para desistir. No entanto, optou por seguir em frente. Sabia que podia mais e foi atrás do sonho.

Pedro Pichardo: "Quando queremos algo, não podemos desistir"

Tal como o ditado "o metal mais forte é forjado na chama mais quente", passou por desafios dentro e fora das pistas. "Quando queremos algo, não podemos desistir. Temos que lutar até conseguir. Nunca desisti. Aprendi isso com a vida. La atrás, se tivesse desistido, não seria quem sou hoje", refletiu Pichardo.

Portugal o acolheu em 2017, quando passou a competir em um dos clubes mais populares do mundo, o Sport Lisboa e Benfica. Meses depois, conseguiu a nacionalidade portuguesa e autorização para competir pelo país. "O Benfica deu-me a oportunidade de seguir a carreira...consegui ser atleta novamente graças ao Benfica", disse.

Instituição que proporcionou uma das maiores emoções para o saltador, quando instalaram um painel com sua foto na parte externa do icônico Estádio da Luz. "Foi isso e quando recebi a Grã-Cruz da Ordem do Mérito, do Presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa", lembrou-se Pichardo das lembranças que mais tem carinho.

Através de resultados, Pedro procura agradecer o país: "Portugal significa muito para mim. Agradeço ao país pelo suporte e apoio. Minha filha é portuguesa. É a minha casa. É o meu país", completou.

Pedro Pichardo (POR) em ação durante os Jogos Olímpicos Tóquio 2020.
Foto: 2021 Getty Images

Alcançar e manter-se no topo

A trajetória de Pedro Pichardo é sim caracterizada por inúmeros desafios, quer seja nas pistas ou longe delas. Isso poderia deixá-lo em uma gangorra de emoções, o que poderia ter afetado o seu desempenho. No entanto, desde que começou a aparecer no cenário internacional, há uma década com a conquista do Mundial Júnior, o seu nome está sempre entre os melhores. Nem mesmo quando ficou ausente das competições por quase um ano, em 2014.

Sobre manter-se no topo, não tem dúvidas: "O primeiro passo é ter um bom treinador, uma boa equipe médica. Depois disso é a mente, manter-se sempre motivado. Graças a Deus o meu pai me motiva muito."

Mas sabe-se que não é apenas isso. A possibilidade de superar o recorde também o mantém motivado, assim como conquistar mais medalhas e títulos. Depois de Los Angeles 2028, pretende parar. Mas antes disso acontecem os Jogos de 2024. "Ainda faltam dois anos para Paris. Não sei o que vai acontecer. Quero apenas chegar em boa forma física. É o principal," comentou.

O salto triplo entrou na vida de Pedro Pichardo como uma opção. Preferia o de comprimento, mas não ia tão bem. Para fazer parte da equipe da cidade onde nasceu, não obtivera o índice necessário.

Optou pelo triplo, deu certo. Nele permaneceu e foi nele que tornou-se campeão Olímpico. Teve que se adaptar e se reinventar. Um cenário que se repetiu em sua vida das mais diversas formas. Soube lidar com tudo isso como ninguém.

Com a maturidade de um veterano e a curiosidade de um iniciante, ele sabe que tem muito ainda por fazer. Por isso faz o que sempre fez: segue com o seu (bom) trabalho.

Está aberto para o que está por vir e, diante de tudo o que já passou, não se surpreende com as adversidades. "Quero ser lembrado como tendo sido um bom atleta, corajoso e humilde", terminou.

Pedro Pichardo no Mundial de Atletismo

A fase classificatória do salto triplo no Mundial de Atletismo em Eugene acontecerá na madrugada de quinta para sexta-feira, entre 21 e 22 de julho, a partir das 2:20 (hora de Lisboa).

A final do salto triplo está agendada para a madrugada de sábado para domingo, entre 23 e 24 de julho, a partir das 2:00 (hora de Lisboa).

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