7 presenças nos Jogos: brasileiros fazem história Olímpica em Tóquio 2020

Em Tóquio 2020, Formiga, Jaqueline Mourão, Robert Scheidt e Rodrigo Pessoa se tornam os atletas brasileiros com mais presenças em Jogos Olímpicos. Saiba mais sobre as quatro lendas do esporte do Brasil.

Gonçalo Moreira
Foto: 2016 Getty Images

Podia se chamar “O Clube dos Sete”, embora eles sejam quatro. Por vezes os números confundem, mas no caso da mountain biker Jaqueline Mourão, do velejador Robert Scheidt, da jogadora de futebol Formiga e do cavaleiro Rodrigo Pessoa eles não enganam: os atletas se preparam para mais uma missão Olímpica pelo Time Brasil e para fazer história se tornando os primeiros representantes do país em sete edições dos Jogos quando entrarem em ação em Tóquio 2020, que acontece em 2021.

Como o tempo não para, Formiga se mantém em movimento

Segundo a ciência, a formiga é um ser vivo extraordinário e algumas espécies são capazes de levantar até 100 vezes o peso de seu próprio corpo. Por sua capacidade de trabalho, pelo contributo para a equipe, Miraildes Maciel Mota tinha por volta de 13 ou 14 anos de idade quando começou a ser tratada por Formiga, em Salvador, onde nasceu e cresceu. Mesmo sem aprovação da própria e com algumas brigas pelo meio, o nome ficou.

Nem ela pensaria que 30 anos depois poucos conhecessem Miraildes, mas todo o mundo soubesse quem é Formiga, a jogadora de futebol que se prepara para representar o Brasil pela sétima vez em Jogos Olímpicos.

No entanto, Formiga não é só esporte. Sua trajetória profissional ajudou a quebrar barreiras para o reconhecimento da mulher como esportista de elite, por isso Formiga carrega mais que o peso de uma carreira de topo a nível mundial, com ela leva a responsabilidade de ser um espelho no qual muitas meninas se veem refletidas.

“Não vou falar que é fácil, mas tem a ver com superação e quebra de barreiras, principalmente por ser mulher. Nós sofremos tantos tipos de proibições e barreiras... Sei que minha carreira abre hoje portas para outras atletas mulheres, não somente no futebol feminino, mas em outras modalidades também.”

Formiga à revista Vogue.

Nascida em 1978, um ano antes do levantamento da proibição das mulheres jogarem futebol no Brasil, Formiga sabe que o tempo não para, por isso se mantém em movimento. Após três anos e meio em Paris, saiu do PSG deixando no museu o primeiro título da Liga francesa da história do clube da capital. O novo desafio se chama São Paulo, onde a volante vai vestir a camisa 8, em uma casa na qual já festejou um Brasileirão (1997) e dois Paulistas (1997 e 1999). A ideia é se manter ligada ao Tricolor após encerrar a carreira profissional.

Caso em Tóquio 2020 a seleção feminina de futebol consiga levar o título, não podemos dizer que Formiga fecha a carreira com chave de ouro, mas seria o auge de uma longa trajetória. A história da menina Miraildes, que de Salvador partiu para conquistar o mundo, promete continuar pelo menos até final da temporada de 2022.

Participações em Jogos Olímpicos:

  • Rio 2016: 4º lugar
  • Londres 2012: 6º lugar
  • Beijing 2008: medalha de prata
  • Atenas 2004: medalha de prata
  • Sydney 2000: 4º lugar
  • Atlanta 1996: 4º lugar

Histórico do velejador Robert Scheidt é digno de um museu

Tem 10 títulos mundiais na classe Laser e três na classe Star, é tricampeão Pan-Americano no Laser e recordista brasileiro de medalhas Olímpicas! O histórico do velejador Robert Scheidt é digno de um museu, mas aos 48 anos de idade a mentalidade é olhar em frente e se desafiar.

Mesmo sendo pouco dado à nostalgia, é importante lembrar que o começo na vela foi por influência do pai, que deu de presente para Robert Scheidt um barco quando o filho fez nove anos. Como tantos outros meninos, o início foi na classe Optimist, onde os aspirantes aprendem conceitos básicos da vela como a autonomia. Em grupos, com supervisão de um treinador, mas cada um no seu Optimist, os jovens velejadores enfrentam o mar.

No caso de Robert Scheidt não era tanto um enfrentamento, mas uma união natural entre atleta e mar, o que levou ao tricampeonato sul-americano de Optimist. O resto é história.

Atualmente vive e treina no Lago de Garda (Itália), um dos melhores planos de água do mundo. Daí fica mais fácil aceder às competições, muito centradas na Europa.

Robert Scheidt é um super competidor, como mostram os resultados em 2021. Após um lockdown passado no retiro italiano, retomou a competição em janeiro com um vice-campeonato no Lanzarote Winter Series, em fevereiro ganhou a Regatta Lanzarote e em abril enfrentou rivais que vai encontrar em Tóquio 2020, em Vilamoura (Portugal), perdendo a competição por um ponto para o campeão mundial Philipp Buhl.

As sensações para Tóquio 2020 são positivas.

Participações em Jogos Olímpicos:

  • Rio 2016: 4º lugar no Laser
  • Londres 2012: bronze no Star com Bruno Prada
  • Beijing 2008: prata no Laser
  • Atenas 2004: ouro no Laser
  • Sydney 2000: prata no Laser
  • Atlanta 1996: ouro no Laser
Jaqueline Mourão porta-bandeira em Sochi 2014

Jaqueline Mourão desafiou as probabilidades

É pouco comum um atleta ser tão dotado fisicamente que não só encontre um esporte onde é capaz de competir nos Jogos Olímpicos de verão, como tenha depois a capacidade de se reinventar, trocar de disciplina e poder viver as emoções dos Jogos Olímpicos de inverno. Muito menos nascendo no Brasil, um país com pouca tradição nos esportes de neve.

Jaqueline Mourão desafiou as probabilidades e em Tóquio 2020 entra na lista dos atletas com sete presenças em Jogos Olímpicos, 13 anos após a última presença no mountain bike, já que pelo meio trocou o calor pelo frio, esquiando com as melhores do mundo do biatlo e do cross-country, esportes populares sobretudo nos países escandinavos e do leste europeu.

A atleta natural de Belo Horizonte é, acima de tudo, embaixadora do esporte do Brasil. Já foi porta-bandeira na Cerimônia de Encerramento de Vancouver 2010, na Cerimônia de Abertura de Sochi 2014 e medalhista de bronze nos Jogos Pan-americanos Lima 2019.

Tóquio 2020, que acontece em 2021, é a sétima aventura Olímpica de Jaqueline Mourão. Aos 45 anos de idade vai com vontade de entrar no top 20 do cross-country e voltar a fazer história para o MTB brasileiro, após o 18ª em Atenas 2004 e o 19º em Pequim 2008, melhores resultados de sempre de uma brasileira no esporte.

“Sou muito pioneira, a primeira do mountain bike, a primeira no biatlo, então o que eu aprendo com todo esse esforço, resiliência, que o caminho é o que importa. Eu tenho 30 anos no esporte, comecei aos 15 no esporte, essa seria minha marca. Tudo que eu aprendi é o que eu levo para minha vida.”

Jaqueline Mourão ao Globo Esporte.

E se preparem porque Jaqueline Mourão poderá em breve criar um clube ainda mais exclusivo, caso se classifique para Beijing 2022: o clube dos atletas que participaram em oito Jogos Olímpicos, o que seria inédito para um brasileiro, mas ainda ficaria distante do recorde de 10 presenças que pertence ao canadense Ian Millar, participante em eventos equestres entre Munique 1972 e Londres 2012, e prata por equipes em Beijing 2008.

Participações em Jogos Olímpicos de verão:

  • Beijing 2008: 19º lugar no MTB cross-country
  • Atenas 2004: 18º lugar no MTB cross-country

Participações em Jogos Olímpicos de inverno:

  • Pyeongchang 2018: 73º lugar nos 10km
  • Sochi 2014: 64º lugar no Sprint | 73º lugar nos 15km | 74º lugar nos 7,5km
  • Vancouver 2010: 67º lugar nos 10km
  • Turim 2006: 67º lugar nos 10km

Rodrigo Pessoa protagoniza um regresso inesperado ao palco Olímpico

Rodrigo Pessoa é uma lenda dos saltos de cavalo: campeão Olímpico em Atenas 2004 na prova individual – a primeira medalha de ouro da história do hipismo brasileiro, bronze em Atlanta 1996 e Sydney 2000 por equipes, campeão mundial e tricampeão da Copa do Mundo!

Aos 48 anos de idade e depois da estreia em Barcelona 1992, quando ainda era um teenager promissor com somente 19 primaveras cumpridas, Rodrigo Pessoa protagoniza um regresso inesperado ao palco Olímpico em Tóquio 2020 após não competir na Rio 2016.

No Japão vai encontrar velhos amigos e atletas que aconselhou durante o ciclo Olímpico, quando assumiu o cargo de selecionador da República da Irlanda na disciplina de saltos e contribuiu para a classificação de seus atletas para Tóquio 2020 através da vitória Copa das Nações de 2019 – Peter Moloney, Paul O’Shea, Darragh Kenny e Cian O’Connor venceram a competição na frente do então campeão em título Bélgica, enquanto a Suécia fechou o pódio; os irlandeses não competem nos Jogos Olímpicos desde Atenas 2004.

No rico histórico Olímpico de Rodrigo Pessoa há ainda um momento não esportivo que jamais esquecerá, o dia em que liderou a delegação brasileira no estádio Olímpico de Londres durante a Cerimônia de Abertura dos Jogos.

Em março, montando Carlito's Way, o cavalo que acompanhará o cavaleiro em Tóquio 2020, conseguiu um 6º posto, em 39 equipes, no GP 5 estrelas 5 integrado no Winter Equestrian Festival, em Wellington, na Flórida (EUA).

Já em julho e em plena reta final da preparação Olímpica, Rodrigo Pessoa se apresentou no Conjunto de Saltos Internacionais de nível 3 estrelas de Tryon (EUA), onde os obstáculos foram colocados a obstáculos de 1.45 m. O cavaleiro realizou duas provas, sendo 6º e 10º. O objetivo é chegar em sintonia total com Carlito’s Way, um holsteiner de 11 anos com quem trabalha há cerca de um ano.

Participações em Jogos Olímpicos:

  • Londres 2012: 22º lugar no concurso individual | 8º lugar por equipes
  • Beijing 2008: dupla foi desclassificada por teste positivo do cavalo para substância proibida
  • Atenas 2004: ouro no concurso individual | 9º lugar por equipes
  • Sydney 2000: 27º lugar no concurso individual | bronze por equipes
  • Atlanta 1996: 9º lugar no concurso individual | bronze por equipes
  • Barcelona 1992: 9º lugar no concurso individual | 10º lugar por equipes