Alison dos Santos tem carta na manga para o Mundial de atletismo: 'A gente quer fazer história'

Medalhista Olímpico de bronze nos 400m com barreiras, brasileiro coloca em prática novo padrão de passadas para alcançar Karsten Warholm e Rai Benjamin no Mundial de Oregon, em julho. Confira a entrevista exclusiva do barreirista ao Olympics.com.

Sheila Vieira
Foto: 2022 Getty Images

Com apenas 21 anos, o brasileiro Alison dos Santos foi um dos protagonistas de uma das provas mais sensacionais dos Jogos Olímpicos Tóquio 2020, o 400m com barreiras masculino. Os três medalhistas, Karsten Warholm (Noruega), Rai Benjamin (EUA) e Alison, bateram o recorde Olímpico na ocasião. Warholm se tornou o primeiro a terminar a prova abaixo de 46 segundos, com o recorde mundial de 45s94.

Agora com 22 anos, Alison sabe que tem muito tempo pela frente para tentar destronar seus adversários, mas o brasileiro tem pressa. Em 2022, ele derrotou Benjamin pela primeira vez, em Doha. A segunda vitória de Alison na Liga Diamante este ano veio em Eugene, estabelecendo a melhor marca do ano, 47s23.

Alison deve reencontrar Warholm e Benjamin no Mundial de Atletismo de Oregon, nos EUA, de 15 a 24 de julho de 2022. O norueguês, no entanto, sofreu um susto na sua estreia na temporada, em Rabat (Marrocos), neste domingo (5 de junho). Warholm não completou a prova ao sentir a perna logo no início da corrida.

Em Oregon, Alison tem uma carta na manga para ser mais rápido: diminuir ainda mais o número de passadas entre algumas das barreiras. "Acho que dá, mas precisa ser rápido. Eu falei em Eugene, para ganhar o Mundial tem que pensar em fazer 45. Pensando em 46 você não ganha", disse o brasileiro em entrevista exclusiva ao Olympics.com.

Confira o papo com Alison, levemente editado por clareza e brevidade, que aconteceu antes da lesão de Warholm em Rabat.

Alison dos Santos nos 400m com barreiras na Liga Diamante, em Eugene, Oregon, Estados Unidos, em maio de 2022. 
Foto: Soobum Im/Getty Images

Olympics.com (OC): Você está treinando desde março na Califórnia. Qual é a importância de estar aí?

Alison dos Santos (AS): Rotina é algo muito importante na vida de um atleta. Temos que ter tudo esquematizado, certinho, para controlar a situação, focar no descanso, chegar melhor nos treinos. Isso estava mais difícil em São Paulo. Vir aqui é uma válvula de escape, porque temos realmente vida de rei. Não preciso me preocupar com nada além de treinar e me alimentar. Procuramos aqui esse sossego para trabalhar.

OC: Como crescer fisicamente e ao mesmo tempo tentar evitar as lesões?

AS: Tocamos muito no ponto da longevidade. Entender que eu sou um atleta, mas não sou um robô. Se a gente pular etapas, posso correr mais rápido esse ano ou ano que vem, mas em 2025 e 2026 eu já não vou ter o mesmo rendimento, porque extraí tudo que tinha para extrair. Então é ter calma no trabalho, porque sou jovem.

OC: Como você avalia as provas que você ganhou na Liga Diamante este ano?

AS: Em Eugene, a gente ficou feliz com a vitória, mas não gostou muito da prova. Estamos mudando algumas coisas, colocando em prática. A gente sabia que dava para ter corrido mais rápido, mas foi bom, deu confiança. Em Doha, cheguei menos descansado por causa do fuso horário e estava ventando muito. O resultado não surpreendeu, mas foi muito bom ganhar do [Rai] Benjamin. Não é que não tinha ninguém do lado, tinha o medalhista de prata Olímpico, que já fez 46s17. Isso mostrou que o que a gente estava planejando está dando certo.

OC: Explica melhor as mudanças que você vem fazendo na sua prova.

AS: Todo barreirista precisa de um padrão de prova. De 2019 a 2021, eu fazia as duas primeiras barreiras com 12 passadas, igual ao antigo recordista Kevin Young. Em 2021, a gente já estava sentindo que precisava colocar mais intervalos com 12 passadas, porque eu me sentia sufocado nas barreiras. Queria ser mais rápido, mas faltava espaço. Agora começamos a fazer testes. Faço 20 passadas até a primeira barreira, isso não mudou. Da primeira para a segunda, faço 13. E da segunda à sexta, faço 12. Depois volto a 13 até o final. Nos testes, estamos mais rápidos do que em Tóquio. Essa solução é para ser mais rápido no início, para ser mais competitivo contra o Warholm e o Benjamin nos 200 metros finais.

OC: Acha que é possível ‘assustar’ o Warholm já nesse Mundial?

AS: Acho que dá, mas precisa ser rápido. Eu falei em Eugene, para ganhar o Mundial tem que pensar em fazer 45. Pensando em 46 você não ganha. A gente sabe que está no caminho, agora é focar para tentar assustar o homem (risos). Ele está precisando de um sustinho, está há muito tempo quietinho (risos).

OC: O que você acha que o Warholm tem de diferente?

AS: Na minha opinião, a diferença dele é psicológica. Você tem que ser meio doido pra entrar na pista e correr 400 com barreira em 45 segundos (risos). Se você dividir o tempo entre as barreiras, vai achar impossível alguém fazer isso. Tem que ser muito forte desde o início da prova. Se você começar assim, vai conseguir terminar? Você começa a colocar barreiras para você mesmo, se limitando. Ele não liga se vai chegar na linha ou não, ele vai. Ele quer muito. Para fazer o que ele faz, precisa ter um psicológico muito grande.

OC: A nossa impressão assistindo é que sua chegada é o seu diferencial.

AS: Os meus 200 metros finais são mais fortes que os deles. Por isso estamos tentando ser mais rápidos no começo. O Benjamin é mais cadenciado, o forte dele é o miolo da prova. Cada um tem o seu estilo e todos são competitivos lado a lado.

OC: Acha que os 400m com barreiras é a melhor prova do atletismo atualmente?

AS: O que estamos fazendo, no masculino e no feminino, é fora do comum. Vai demorar para acontecer de novo. Três atletas quebrarem o recorde Olímpico na final, e isso aconteceu no feminino também, é fazer história. É a prova mais forte do atletismo mundial, porque não é só um atleta com bons resultados. São mais que três com resultados absurdos.

OC: Você imaginava chegar nesse patamar tão jovem?

AS: Se você me falasse em 2018, como imagina sua vida? Eu queria ir pro Mundial juvenil e brigar por alguma coisa. Em 2019, pelo Pan juvenil, nem sonhava chegar no Pan adulto. Queria fazer o índice Olímpico para sentir a energia dos Jogos Olímpicos. Ganhamos o Pan e fizemos final do Mundial em 2019 e depois disso tudo era possível. Mas não competi em 2020 por causa da pandemia, então não sabia como estava minha forma. Não imaginava brigar por medalha. Mas assim que voltamos, comecei a sonhar com 46. A gente evoluiu muito rápido.

OC: Você tem um estilo despojado, mas ao mesmo tempo muito maduro. De onde vem isso?

AS: Passei por muitas coisas na vida, desde bebê [Alison sofreu uma queimadura acidental com uma panela de óleo aos 10 meses de idade]. Não tinha nem um ano de idade e já estava passando dificuldades. Em certos momentos, tive que crescer rápido. Meus pais me ensinaram muita coisa, que você precisa ser comprometido com o que faz. Só que também pode se divertir enquanto faz isso. Tem que ter essa maturidade de entender as coisas. Como eu evoluí rápido no atletismo, fui jogado no mundo dos leões, passei perrengues. Mas como a gente quer fazer história, quer ser campeão Olímpico, campeão mundial e recordista mundial, a gente tem que desenvolver essa maturidade.

OC: Como foi a vida pós-Tóquio e como você voltou ao foco no atletismo?

AS: O pós-Tóquio foi um dos períodos mais engraçados da minha vida. Eu ia para qualquer lugar e ficavam me olhando, me chamavam de malvadão no aeroporto. Acho muito engraçado como nós, brasileiros, temos intimidade com quem a gente nunca viu. As pessoas falavam comigo como se fossem meus melhores amigos. Falavam que gritaram tanto quando eu ganhei medalha que levaram multa do condomínio. Contando o que viveram comigo, sem viver comigo, sabe? O povo brasileiro apoiou muito os atletas nos Jogos e isso foi mágico. A gente se sente grato de poder dar orgulho não só para as pessoas próximas, mas para uma nação inteira.

Depois dos Jogos, não queria saber de atletismo. Por duas semanas, se você me olhasse, não ia acreditar que eu era atleta. Comia errado, dormia errado e só jogava videogame. Chutei o balde, mas tive que ir buscar o balde rápido porque tinha que competir (risos). Mas a motivação total mesmo só voltou para esta temporada.

OC: Você torceu bastante para o Paulo André Camilo durante o Big Brother Brasil. Acha que ele consegue te encontrar lá no Mundial?

AS: Do PA eu não duvido nada. Ele tem uma cabeça muito boa para treino. Ele é muito talentoso, muito bem orientado pelo pai. O índice [do Mundial] é duro e o tempo é curto, mas não duvido que ele chegue competitivo no Troféu Brasil. Não descarto a possibilidade de ele ir ao Mundial. No revezamento é um pouco mais tranquilo, mas não vou ficar surpreso se ele fizer no individual.

OC: Você era chamado de Piu, agora de Gelado [personagem do filme Os Incríveis]. Decidiu mudar?

AS: Estou usando agora esse uniforme azul e branco, e uma amiga da Lorraine [Martins], que treina comigo, disse que eu parecia o Gelado. E é igualzinho mesmo! Fizeram montagem minha com o personagem, achei engraçado, falei 'vou aderir'. Depois dos Jogos todo mundo me chamava de Malvadão, agora sou Gelado. Tem que ir mudando, novos ares!

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