Alison dos Santos faz história para o atletismo brasileiro com título mundial nos 400m com barreiras

Brasileiro enfim supera o recordista mundial Karsten Warholm, que perdeu rendimento durante a prova, e Rai Benjamin. Aos 22 anos, ele se torna o segundo atleta do país campeão mundial, após Fabiana Murer.

Sheila Vieira
Foto: 2022 Getty Images

Pela segunda vez na história, o Brasil é campeão mundial no atletismo. Alison dos Santos, aos 22 anos de idade, derrotou o recordista mundial Karsten Warholm e o americano Rai Benjamin para levar a medalha de ouro nos 400m com barreiras masculino em Eugene, nos EUA, em 19 de julho de 2022, com tempo de 46s29, sua melhor marca e recorde do campeonato.

A medalha de prata ficou com Benjamin, com 46s89, e o bronze com outro americano, Trevor Bassitt, com 47s39. Warholm terminou em sétimo com 48s42. O norueguês chegou a liderar a primeira metade da prova, mas sentiu fisicamente nos últimos 200 metros. Ele havia se lesionado em junho e estava sem ritmo de competição.

Medalhista de bronze em Tóquio 2020, Alison teve uma ascensão meteórica nos últimos quatro anos. Uma evolução que é coroada após uma temporada perfeita, invicto em todas as provas que disputou. Ele repete o feito de Fabiana Murer, brasileira campeã mundial no salto com vara em 2011.

"Sabe quando você sonha com uma coisa e acorda todos os dias da sua vida, sabendo o que tenho que fazer para alcançar essa vitória, o lugar mais alto do pódio e melhorar meu resultado. Falar é fácil, o negócio é vir fazer. A gente estava treinando bem e sabia o que fazer", disse Alison ao Sportv.

Dedicando a vitória à sobrinha recém-nascida, o corredor afirmou que é "uma sensação muito boa alcançar o topo do mundo".

Apesar de ter apenas 22 anos, ele destaca sua maturidade como um fator essencial para o título. "A frieza. Trazer isso para a prova, saber que aqui é a parte fácil, competir é fácil. Não tem dor ou estresse. Eu fico nervoso nos treinos. Aqui eu me sinto em casa, sou o Gelado", brincou, referindo-se ao personagem que virou seu apelido.

Sobre o futuro, Alison já planeja o próximo passo: ser uma lenda. "Alguém que daqui a 30, 40 anos, quando falarem de 400m com barreiras, vão lembrar do Alison dos Santos."

Para isso, a mira está no recorde mundial de Warholm. "A gente tem noção que essa marca [45s94] é possível. A gente sabe como melhorar. Não é questão de se, mas de quando".

Na zona mista, Alison ressaltou a importância do seu resultado em seu país. "Quero abrir as portas para os brasileiros, porque sou o primeiro cara a ganhar o Mundial. É muito incrível fazer todo mundo ver que eles podem vir ao Mundial e ganhar, que não é impossível."

Alison dos Santos: de um acidente e uma cicatriz até o título mundial

Quem vê o jeito descontraído de Alison dos Santos nas pistas e entrevistas talvez não imagine que ele passou por um grande trauma quando bebê: uma panela com óleo quente caiu em seu corpo aos 10 meses de idade, deixando uma cicatriz em sua cabeça. Foram meses no hospital, mas Alison sobreviveu e continuou sua jornada que culminaria nesta noite em Eugene.

"Não tinha nem um ano de idade e já estava passando dificuldades. Em certos momentos, tive que crescer rápido. Meus pais me ensinaram muita coisa, que você precisa ser comprometido com o que faz. Só que também pode se divertir enquanto faz isso. Tem que ter essa maturidade de entender as coisas", disse Alison ao Olympics.com em junho.

Alison nasceu em São Joaquim da Barra, no interior do estado de São Paulo e inicialmente praticava judô. No entanto, sua altura de 2 metros acabou sendo mais vantajosa no atletismo. Ele se destacou cedo nos 400m rasos e com barreiras.

Aos 19 anos, Alison estourou no cenário mundial, vencendo o Pan-Americano Lima 2019 e a Universíade. No Mundial de 2019, ele ficou na sétima posição, a 0.25 do pódio.

"Se você me falasse em 2018, como imagina sua vida? Eu queria ir pro Mundial juvenil e brigar por alguma coisa. Em 2019, pelo Pan juvenil, nem sonhava chegar no Pan adulto. Queria fazer o índice Olímpico para sentir a energia dos Jogos Olímpicos. Ganhamos o Pan e fizemos final do Mundial em 2019 e depois disso tudo era possível. Mas não competi em 2020 por causa da pandemia, então não sabia como estava minha forma. Não imaginava brigar por medalha. Mas assim que voltamos, comecei a sonhar com 46. A gente evoluiu muito rápido", contou Alison.

Alison dos Santos comemora ao conquistar o ouro no Mundial.
Foto: 2022 Getty Images

A evolução após Tóquio

Batendo seu recorde pessoal a cada prova, Alison já chegou aos Jogos Olímpicos em 2021 como favorito ao bronze, e assim o fez. O norueguês Karsten Warholm e o americano Rai Benjamin ainda estavam um degrau acima, mas Alison ainda tinha muito a crescer.

"Tocamos muito no ponto da longevidade. Entender que eu sou um atleta, mas não sou um robô. Se a gente pular etapas, posso correr mais rápido esse ano ou ano que vem, mas em 2025 e 2026 eu já não vou ter o mesmo rendimento, porque extraí tudo que tinha para extrair. Então é ter calma no trabalho, porque sou jovem", afirmou Alison.

Em 2022, Alison fez um camping de quatro meses nos EUA, focado no Mundial. Ele venceu quatro etapas da Liga Diamante e chegou ao Mundial com o melhor tempo da temporada. Tanto as eliminatórias, quanto na final, o brasileiro mostrou que estava mais confiante do que nunca.

O segredo para a evolução está em crescimento físico e também em um novo padrão de passadas. Alison começou a fazer 12 passadas (o normal costuma ser 13 para a maioria dos corredores) entre mais barreiras, para ajustar sua velocidade à necessidade da prova. "Essa solução é para ser mais rápido no início, para ser mais competitivo contra o Warholm e o Benjamin nos 200 metros finais", ele explicou ao Olympics.com.

MAIS | Leia entrevista completa de Alison dos Santos antes do Mundial

Vitória Rosa bate recorde sul-americano dos 200m

Em um dia histórico para o atletismo brasileiro, as mulheres também tiveram um momento especial.

Melhor velocista brasileira, Vitória Rosa não avançou à final dos 200m rasos, mas fez a melhor marca da história da América do Sul na prova, 22s47.

A marca anterior era da também brasileira Ana Claudia Lemos, 22s48, em 2011. Vitória terminou as semifinais na 12ª colocação.

"Isso mostra que não sou só uma simples atletas que está aqui, mas estou competindo, sou talentosa", disse uma emocionada Vitória ao Sportv.

Nos 100m rasos, Vitória havia parado nas eliminatórias. Ela comentou que se sente mais confortável nos 200m.

"Essa prova é a minha casa. Não sei qual é a conexão que tenho com essa prova, é como um amor de mãe, que a gente não consegue falar, só sentir."

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