Dia Internacional da Saúde Mental: Peter Haberl, psicólogo da equipe norte-americana, compartilha segredos sobre como funciona a mente dos atletas

Como as dúvidas de Rafael Nadal ajudam outros atletas Olímpicos no controle da ansiedade? Como ver os Jogos Olímpicos ajuda torcedores na superação do medo pelo desconhecido? Quais foram as lições aprendidas de Tóquio 2020 pelos psicólogos da equipe norte-americana? No Dia Internacional da Saúde Mental, Peter Haberl respondeu essas perguntas e muito mais em uma entrevista exclusiva para o Olympics.com  

Marina Dmukhovskaya

O bem estar mental dos atletas sempre foi muito importante para o universo do esporte, e as experiências de Simone Biles em Tóquio 2020 fez do tema uma discussão global. Anteriormente na série "O time por trás dos campeões", ficamos por dentro de como os atletas estão preparando corpo e equipamentos para os seus grandes momentos nos Jogos de Beijing que estão por vir.

Mas como eles preparam a mente? O Olympics.com conversou com o psicólogo da equipe Olímpica dos Estados Unidos, Peter Haberl, sobre a importância da saúde mental e o aperfeiçoamento da mentalidade dos atletas.

De jogador de hóquei no gelo a psicólogo do esporte

A história de Haberl começou na Áustria, quando ele era jogador de hóquei no gelo. "Percebi que as diferenças que existiam entre quando eu jogava bem e quando eu não jogava estavam relacionadas com a minha mente. Fiquei com vontade de aprender mais sobre isso."

Essa vontade levou Haberl a se inscrever em um curso superior de Psicologia do Esporte pela Universidade de Boston. Enquanto estudante, ele foi aprovado em processo seletivo para estagiário de uma equipe local de hóquei no gelo. Quando o treinador dessa equipe, Ben Smith, foi convidado para estar à frente da seleção feminina norte-americana da modalidade, ele levou consigo o recém-formado Haberl, para preparar o time para os Jogos Olímpicos Nagano 1998, ocasião em que os Estados Unidos levaram o ouro. O título Olímpico fez com que Haberl fosse contratado para juntar-se a psicólogos do esporte a serviço das equipes Olímpicas norte-americanas, em Colorado Springs.

Caso você já esteve - ou pretende estar - em uma sessão de treinos de uma equipe Olímpica ou de copa do mundo dos Estados Unidos, provavelmente observará uma pessoa em pé, perto de uma piscina ou rinque de gelo, analisando a linguagem corporal dos atletas enquanto eles respondem ao cometerem um erro. Essa pessoa pode ser Peter Haberl, que agora viaja com as equipes nacionais norte-americanas por todo o planeta.

"Seja um campeonato mundial, uma copa do mundo ou Jogos Olímpicos, eu vou aos treinos com eles pela manhã e fico por ali. Eu ouço e vejo o que está acontecendo. Eu tenho sessões particulares com os atletas bem como consultas coletivas, onde fazemos um trabalho de atenção plena e atividades que ajudam a construir um espírito de equipe."

No entanto, Haberl enfatiza que ele não lidera quaisquer atividades:

"Não sou eu falando para os atletas. Sou eu fornecendo um ambiente onde eles podem falar uns com os outros, uma vez que eu trabalho mais com esportes coletivos do que individuais."

As tricampeãs Olímpicas do polo aquático Maggie Steffens e Melissa Seideman com os colaboradores do Comitê Olímpico e Paralímpico dos Estados Unidos, em Tóquio
Foto: Jeff Cable Photography USA Water Polo

Corrigindo os erros de Tóquio

Haberl admite que seu trabalho agora é diferente do papel que ele tinha antes de Tóquio 2020. Hoje consiste em analisar e reavaliar os objetivos da equipe, sendo o principal foco a mente do atleta.

"Ajudo os atletas a entenderem como trabalha a mente deles, para que eles possam lidar com isso numa competição. Ela trabalha como uma fábrica que produz emoções e pensamentos. Entretanto, a mente vem com um ladrão embutido. Esse ladrão rouba algo precioso dos atletas. Os atletas dizem que ele rouba a confiança. Para mim, ele rouba algo ainda mais importante: a atenção e a habilidade para se concentrar."

Haberl também explicou que são várias as lições para serem aprendidas das experiências da equipe de ginástica dos Estados Unidos em Tóquio 2020:

"A principal lição disso é que o atleta é um ser humano. Não existem super heróis, eles têm uma mente como você e eu. Assim como com o seu corpo, você pode treinar a sua mente. Sou grande defensor de treinar a mente uma vez que você vai disputar os Jogos Olímpicos. Com esse processo, você será menos surpreendido pelos desafios que você provavelmente irá encontrar."

E tanto quanto a preparação física é importante para os atletas, é também vital que eles preparem suas mentes antes de um grande evento esportivo.

"Estamos em um nível de desenvolvimento dos esportes em que entendemos a componente física muito bem. Muitos atletas conduzem a preparação física muito bem. Mas não é tão clara a preparação psicológica. O que realmente faz a diferença nos Jogos é a qualidade da preparação da mente."

O desafio mental dos esportes de inverno

Com o término de Tóquio 2020 em agosto e Beijing 2022 que bate à porta, Haberl estava ansioso para falar dos diferentes desafios impostos pelos esportes de verão e de inverno.

"Muitos esportes de inverno dependem das condições climáticas, então há certo nível de incertezas. Alguns deles são muito perigosos. A habilidade para se concentrarem e se manterem concentrados é bastante importante."

Haberl teve o cuidado de explicar que as lutas mentais que os atletas das modalidades individuais lidam são semelhantes às das coletivas, como o hóquei no gelo ou o curling.

"Pode ser mais fácil trabalhar com o atleta de um esporte individual. Quando as coisas não acontecem do jeito deles, eles não podem culpar nenhuma outra pessoa. Isso faz deles muito responsáveis. Mas mesmo atletas dessas modalidades individuais são parte de uma equipe. Eles lidam com dinâmicas de equipe que podem impactar suas experiências."

Rafael Nadal como modelo

Como psicólogo, Haberl gosta de usar o exemplo de Rafael Nadal. Durante suas sessões de treino, ele sempre lembra uma frase de Nadal dita durante um Aberto da França, quando o tenista espanhol disse: "Em todos os anos em que joguei aqui, todas as vezes eu tive dúvidas". No entanto, a lenda do tênis venceu o torneio em 13 ocasiões.

"Quando eles ouvem esses exemplos, eles demonstram um certo alívio. Eles pensam, 'Não sou o único. Talvez eu possa trabalhar também com isso, não através de mudar os meus pensamentos, mas tendo o domínio da minha atenção.' A atenção é a moeda do desempenho, não os pensamentos ou os sentimentos."

“Ele (Nadal) é muito honesto, real, autêntico e vulnerável. Ele não se importa em falar sobre suas constantes dúvidas. Ele entende como sua mente trabalha. Os atletas podem se enxergar em alguém com tanto sucesso como Nadal."

Para alguns atletas, a maior batalha mental pode não acontecer em Beijing. Pode inclusive começar quando um colega de equipe se torna um concorrente para uma vaga nos Jogos Olímpicos.

“A seletiva Olímpica é um jogo de soma-zero onde nem todos conseguem se classificar para os Jogos. Às vezes é estarrecedor para alguns atletas. Diz respeito a como nós definimos a competição. A batalha mais árdua é contra você mesmo. A competição nos permite dar o nosso melhor. Mas para isso acontecer, nós precisamos ter a melhor competição, em um nível que nos faça querer crescer. A competitividade nos permite, através dos adversários, alcançar e conquistar muito mais."

“Vamos abraçar a incerteza”

É claro que não são apenas os atletas que estão sujeitos aos desafios da saúde mental. No entanto, Haberl acredita que há muitas lições que os torcedores de Beijing 2022 vão aprender ao verem os Jogos.

"A principal razão pela qual nós vemos os Jogos é porque o resultado é incerto. É isso que nos puxa. A lição que os atletas nos ensinam é que nós podemos lidar muito bem com essa incerteza."

"Somos ansiosos pela certeza, todos queremos saber o que acontece na frente. Mas a verdade é que nós nunca saberemos o que vai acontecer. Nós podemos ser muito bons em sermos confortáveis com essa incerteza. É o que nos mantém vivos. Então vamos abraçar a incerteza ao invés de agarrar a certeza."

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