Marcus Vinicius D'Almeida coloca Paris 2024 na mira: 'Quando se está preparado, tudo é possível'

Em 2021 ele se tornou o primeiro brasileiro da história a conquistar uma medalha no Mundial de tiro com arco, com o segundo lugar em Yankton, Estados Unidos. Confira entrevista com este carioca que, aos 24 anos e já com dois Jogos no currículo, tem como alvo a medalha Olímpica em 2024.

Virgílio Franceschi Neto
Foto: For info: dean@dutchtarget.com

"Foi um processo natural", é como Marcus Vinicius D'Almeida descreve o seu envolvimento com o tiro com arco.

O primeiro contato aconteceu aos 12 anos de idade, entre 2010 e 2011. Ele já vivia em Maricá (interior do estado do Rio de Janeiro), onde a Confederação Brasileira de Tiro com Arco (CBTARCO) estabelecera uma sede e um centro de treinamento, divulgado na reunião de pais da escola em que Marcus Vinicius estudava. Por sugestão dos pais, resolveu experimentar.

Desde então arco e a flecha tornaram-se, praticamente, extensões do seu corpo.

Este processo natural é, segundo Marcus Vinicius, "o sonho de todo o arqueiro": quando o atleta realiza uma sequência de movimentos que, de tão suaves e delicados, dão a impressão de que nada se mexeu até a flecha ser disparada. Em suma, fazer com que o corpo aja sem preocupar-se em controlar.

Apesar da pouca idade, aos 24 anos soma uma medalha de prata individual nos Jogos Pan-americanos Lima 2019 e duas participações em Jogos (Rio 2016 e Tóquio 2020), sendo que no Japão ele deu ao Brasil a melhor colocação Olímpica em eventos do tiro com arco, quando chegou às oitavas de final, sendo derrotado por Mauro Nespoli (ITA) que foi medalhista de prata. Meses depois de Tóquio, seu melhor resultado na carreira, com o segundo lugar individual no Mundial de Yankton, nos Estados Unidos.

"Falta a medalha Olímpica", diz Marcus Vinícius. Para isso, ele comenta ser preciso "mais treino e experiência". "É preciso deixar o corpo falar e fazer sozinho... a experiência deixa o corpo falar sozinho", complementa. É o tal do processo natural.

O carioca está pronto para o seu primeiro compromisso na Copa do Mundo de Tiro com Arco em Gwangju, na República da Coreia, entre 16 e 22 de maio. A medalha de Paris 2024 é destino desta jornada e está na mira de Marcus Vinicius, que conversou com o Olympics.com sobre sua trajetória, o esporte e o que é preciso para estar no pódio dos próximos Jogos, na capital francesa.

O brasileiro Marcus D'Almeida durante o Mundial de Tiro com Arco em Yankton, na Dakota do Sul, nos Estados Unidos, em maio de 2021.
Foto: For info: dean@dutchtarget.com

O alvo fala

Marcus Vinicius percebeu que o tiro com arco passou a ficar sério quando, aos 14 anos, foi chamado para a seleção pela primeira vez e recebendo salário: "Já passou a não ser mais hobby, dois anos depois de eu começar a praticar", acrescentou.

Um esporte que, segundo ele próprio, um arqueiro, descreve: "o alvo 'fala' e depende muito de você. O alvo é uma resposta. Se você não acertou, existe um porquê para isso." Uma metáfora do cotidiano, por sinal. "Faz dar um sentido àquilo que também está acontecendo na vida", acrescenta Marcus Vinicius.

O alvo central tem o tamanho de um CD (compact disc). A flecha mede 31 polegadas (78,74cm) e alcança 220km/h disparada de uma distância de 70m, desde um arco que, quando puxado, chega aos 25kg. São aproximadamente 1700 tiros por semana. Muitos números que sugerem precisão, dados, estatísticas, situações mensuráveis e quantitativas.

"Estar com o físico bom reflete em tudo na sua vida", pondera o arqueiro brasileiro, que pratica corrida, musculação e levantamento de peso. Mas não só o mensurável, o quantitativo e o físico que contam. A meditação e os cuidados com a mente também estão na sua rotina. "No treino, corpo e mente correspondem a 50%. Na competição, é 90% mente", explica Marcus Vinicius.

Não há dúvidas de que um atleta do tiro com arco busca a precisão. Para tê-la, a exigência deve ser uma constante. Indagado se é isso mesmo, ele não discordou: "Sou exigente, sim. Antes era mais, não descansava aos domingos, me cobrava, estava em alerta o tempo todo."

No entanto, o esporte e a experiência ensinaram-lhe algo: "Quanto mais controle você quer ter, pode ser pior", refletiu ele ao relembrar de quando considerou todos os cenários possíveis e acabou não indo bem; e quando foi bem, sem tantas preocupações e de uma maneira que desfrutou da competição.

Brasileiro Marcus D'Almeida durante o Campeonato Mundial de Tiro com Arco em Yankton, Dakota do Sul, em 2021.
Foto: for info: dean@dutchtarget.com

Rio 2016 x Tóquio 2020

Marcus Vinicius comparou na entrevista as duas vezes em que participou dos Jogos Olímpicos: 'em casa' na Rio 2016 e em Tóquio 2020. "No Rio de Janeiro eu tive projeção, mas cheguei com overtraining", comentou o arqueiro, que terminou em 33º lugar na competição individual. "Mas graças à Rio 2016 eu consegui continuar com o tiro com arco", completou.

O alvo 'falou' para Marcus Vinicius, que planejou o ciclo para Tóquio 2020. Para isso, entre 2018 e 2019 foi quatro vezes para a República da Coreia, passar entre 30 e 40 dias a treinar ao lado de atletas e treinadores locais (como Kim Hyung Tak), referências na modalidade. "Fui em busca da evolução técnica, não saía do mesmo nível já tinha dois anos. Treinava a semana toda, com folgas nas tardes de quinta-feira e aos domingos".

O hiato que a pandemia provocou no calendário esportivo internacional não deu outra alternativa a Marcus Vinicius a não ser treinar isoladamente. Assim foi e, a partir de quando possível, voltou a competir. Classificou-se para Tóquio 2020 e deu ao país o melhor resultado Olímpico no tiro com arco. "Tive mais cabeça, fui mais preparado. Me senti mais no caminho do que antes, como se estivesse renovando laços com o tiro com arco, com um staff maior e mais amparado... mostra a boa fé das pessoas", comentou.

A prata no Mundial de Yankton

Foi com este espírito que Marcus Vinicius desembarcou na Dakota do Sul (Estados Unidos), em Yankton, poucos meses depois para a disputa do Mundial. Na campanha, quatro vitórias e uma derrota que deram ao brasileiro o segundo lugar e a primeira medalha do país em um Mundial da modalidade.

Entre os fatores que considerou terem sido importantes para a conquista da prata, mencionou a tranquilidade e haver disputado dos Jogos em Tóquio: "Ter participado dos Jogos me ajudou muito, nos Jogos renovei os meus laços com o esporte e lá soube que podia fazer melhor. Cheguei no Mundial com menos pressão", analisou.

Quando perguntado se a medalha surpreendeu, ele não escondeu: "De certa forma sim, mas quando se está preparado, tudo é possível."

Com medalhas em Copa do Mundo, Mundial, Jogos Sul-americanos e Pan-americanos, o próximo passo é tentar a medalha Olímpica.

O alvo: Paris 2024

A jornada para a que será sua terceira edição de Jogos Olímpicos está em curso. Marcus Vinicius disputará as próximas três etapas da Copa do Mundo de Tiro com Arco, em Gwangju (República da Coreia) daqui alguns dias, entre 16 e 22 de maio; em Paris (França) de 20 a 26 de junho e em Medellín (COL) de 18 a 24 de julho. Ainda neste ano terá pela frente os Jogos Sul-americanos e Pan-americanos de tiro com arco.

Em 2023 ele vai para o ouro nos Jogos Pan-americanos de Santiago, o que pode dar para Marcus Vinicius a vaga direta em Paris 2024. Caso isso não aconteça, ele vai depender da colocação no ranking mundial ou classificar-se através da repescagem Olímpica.

Entre sorrisos e duradouras tomadas de ar, ele pensou no que é preciso para conquistar a medalha que falta, a Olímpica: "Pergunta difícil essa, hein?" Entretanto, não demorou muito, ele emendou: "Primeiro é treino. Depois, paciência. Preciso acumular experiência e chegar em Paris com a cabeça boa", concluiu.

Um CD - que corresponde ao centro do alvo do tiro com arco - possui diâmetro de 12 centímetros. Já uma medalha Olímpica tem metade disso, 6 centímetros.

Independente do tamanho, ela (a medalha Olímpica) sempre esteve na mira de Marcus Vinicius. Como ele mesmo diz, o alvo 'está falando'. Por ser menor, o trabalho vai ser maior. A experiência fará a diferença e fará com que o corpo aja sozinho, sonho de todo arqueiro.

É hora, mais do que nunca, de deixar o corpo falar.

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