Bruninho: ‘Podem achar utopia, mas a gente sonha com o título mundial’

O capitão da seleção brasileira de vôlei fala com exclusividade ao Olympics.com antes do Mundial, que começa em 26 de agosto. O medalhista Olímpico de ouro e prata conta como é possível derrotar a favorita França e ser um líder empático para a nova geração, também elogiando a evolução de Gabi no time feminino.

Sheila Vieira
Foto: 2017 Getty Images

Ser capitão da seleção masculina de vôlei é um dos cargos de maior responsabilidade no esporte brasileiro. Desde 2013, ele está nas mãos de Bruno Rezende, o Bruninho, que enfrenta mais um desafio com a equipe no Campeonato Mundial de 2022, de 26 de agosto a 11 de setembro, na Polônia e na Eslovênia.

Criado em uma fase mais rígida do vôlei, Bruninho agora lida com uma geração que precisa de um outro tipo de liderança. “Antes, as coisas eram mais na porrada”, disse o medalhista Olímpico de ouro e prata com exclusividade ao Olympics.com. “Hoje, com a atual geração, precisa conversar mais, entender o companheiro, sentar ao lado para extrair o melhor de cada um”, acrescentou.

Após parar nas quartas de final da Liga das Nações, a seleção masculina chega pressionada ao Mundial. Parece difícil derrubar a favorita França. Porém, para Bruno, o Brasil sempre trabalhará para estar no topo.

“Sabemos da dificuldade, porque estamos enfrentando várias grandes equipes. Mas visualizamos isso [o título]”, afirmou.

Confira a conversa com um dos grandes ídolos do vôlei brasileiro abaixo.

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Bruno Rezende comemora ponto com Wallace, Leal e Lucarelli em Tóquio 2020.
Foto: 2021 Getty Images

Olympics.com (OC): Como balancear a necessidade de fazer testes na equipe e a expectativa que as pessoas têm de resultados da seleção brasileira?

Bruno Rezende (BR): Não é simples. Acho que a Liga das Nações talvez fosse mais o momento para testes. No Mundial, existe uma responsabilidade, uma pressão. O Brasil vem de cinco finais consecutivas, com três títulos. A gente quer continuar nesse caminho.

Temos que entender que existem processos de renovação, que fazem parte, mas sem nunca deixar de brigar sempre pelas melhores posições. Essa é uma característica do Brasil nos últimos 21 anos. É continuar esse legado que a outra geração deixou para nós.

Nem sempre os resultados vão ser aquilo que a gente espera, porque o equilíbrio é muito grande. Mas a vontade tem que ser 110% em cada treinamento e partida para continuar sendo uma das equipes a serem batidas no mundo.

OC: Essa pressão acaba sendo uma consequência do nível que a seleção estabeleceu neste século.

BR: Com certeza. A gente se acostuma. Recentemente fez 10 anos da medalha de prata em Londres 2012. Você olha a foto e só vê tristeza e frustração. Lógico que foi doído, mas você percebe os atletas de outras modalidades, eles ficam super contentes com uma prata. Hoje eu consigo sorrir para aquela medalha. Eu valorizo, porque ano passado a gente ficou fora do pódio.

A excelência que o voleibol brasileiro teve nos últimos 20 anos criou isso. Nós sofremos com os resultados ruins, somos os primeiros a ficarmos frustrados por não entregar o que a gente deseja. Temos que valorizar o processo, fazer de tudo. Mas às vezes os adversários também querem.

OC: Quem você vê como favoritos para o Mundial?

BR: A França está em um momento de confiança muito grande. A Polônia é o time da casa e muito forte. A Itália tem um time jovem, mas que vem demonstrando força. Os EUA fizeram uma grande Liga das Nações. Correndo por fora, a Argentina, [República Islâmica do] Irã e Cuba. Esses times podem incomodar, porque o mata-mata agora começa nas oitavas de final. Pode ter surpresas.

OC: Se a França já é fortíssima agora, como pará-los em casa em Paris 2024?

BR: Eles são um time, primeiramente, tecnicamente muito forte. Têm uma geração, com o central Chinenyeze e o [Jean] Patry, com jogadores muitos fortes também fisicamente, que acabaram agregando algo que talvez faltasse um pouco para eles no passado, que é essa parte física. Eles eram muito técnicos, mas faltava no físico. Quando conseguiram aliar essas duas coisas, viraram um dos times mais fortes do mundo.

Eles estão em um momento de muita confiança, de humor. É um time muito ousado também, mas sabemos como enfrentá-los. Em momentos de pressão, conseguimos vencê-los. Temos que colocar pressão e não entrar no jogo mais ‘largado’ deles. Temos que ter concentração, neutralizar a velocidade que eles imprimem no jogo, que é muito através do saque. Se você tirar a confiança deles, eles sofrem um pouco também. Mas, sem a menor dúvida, é o time a ser batido no mundo.

OC: E quais são os seus objetivos pessoais até Paris 2024?

BR: Agora eu só penso no Mundial. As pessoas podem achar que é utopia, que está longe, mas a gente sonha com o título Mundial. Quero pensar positivo. Sabemos da dificuldade, porque estamos enfrentando várias grandes equipes. Mas visualizamos isso.

Também tenho mais duas temporadas jogando no Modena, na Itália, no campeonato mais forte do mundo, para poder continuar entre os melhores e ter mais chance de estar em Paris. Quero continuar bem fisicamente até lá.

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OC: Já com uma década como capitão da seleção, como você gostaria de ser lembrado? Tem alguém em quem você se inspira?

BR: Com o mesmo legado que consegui pegar da outra geração. Não foram os mesmos resultados, porque aquela foi a melhor da história, entre 2001 e 2006. Não é só o que eu gostaria de ser como capitão, mas os valores da seleção de trabalho, sacrifício e resiliência.

Tive a oportunidade de ter ao meu lado caras que foram grandes exemplos. Quando eu cheguei, tinha o Giba, o Gustavo, o Serginho, depois o Murilo e eu busquei algo de cada um. Também tenho uma coisa natural de liderança que talvez venha do meu pai [Bernardinho].

A liderança pelo exemplo era o principal foco deles. Eles eram campeões de tudo e sete e meia da manhã estavam lá dando peixinho na quadra. Eles sempre queriam mais. Então, eu gosto de ser um dos primeiros a chegar. Quero mostrar para os mais jovens que pelo trabalho nós colhemos os frutos.

O líder também precisa ter uma inteligência emocional e ser empático para entender que as gerações vão mudando. Antes, as coisas eram mais na porrada. A gente brigava mais e cobrava mais, também era muito cobrado. Hoje, com a atual geração, precisa conversar mais, entender o companheiro, sentar ao lado para extrair o melhor de cada um. Todos são fundamentais para atingir o objetivo em comum.

OC: Quais jogadores do time atual você acredita que pode dividir essa responsabilidade?

BR: Sem dúvida, os mais velhos, como o Lucão e o Lucarelli, que vêm crescendo nesse sentido de liderança, também pela experiência de jogar fora. Tudo isso vem dando uma maturidade muito grande para ele.

O Wallace é um pouco diferente, talvez um pouco mais calado, mas ele é alguém que puxa muito pelo exemplo. Ele não conversa tanto, mas pelo comportamento acaba sendo um espelho para os outros.

Dos mais jovens, vejo essa personalidade no Cachopa. O levantador precisa ser assim, tem que saber motivar os companheiros. Claro que ele vai precisar ter uma maturidade maior, mais experiência. Mas acho que ele pode ser um cara para o futuro.

OC: Tem alguma jogadora da seleção feminina que você admira em especial?

BR: A Gabi. Ela é mais jovem que eu, eu acompanho o desenvolvimento dela desde quando ela treinava com o meu pai no Rio de Janeiro. Ela se tornou, para mim, a melhor jogadora do mundo pela sua técnica. Ela é muito completa. Eu assisto a ela, vejo como ela é uma líder, seja pelo time na Turquia, quanto pela seleção. As pessoas respeitam a Gabi demais. Fico muito feliz de ver esse crescimento dela. Ela está tão madura agora e virou uma referência não só no voleibol, mas para todo o esporte brasileiro.

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