Quando vencer não é tudo. Os maiores gestos de espírito esportivo na história dos Jogos Olímpicos de Inverno

Muitas vezes gestos brilham mais que as medalhas e tocam o coração das pessoas. Por isso selecionamos alguns belos exemplos de espírito esportivo na história dos Jogos de Inverno.

Chiaki Nishimura
Foto: 2014 Getty Images

Se os seus rivais estivessem com sérios problemas no dia da competição, depois de quatro longos anos de treinos duros, intensos, em que abriram mão de tanta coisa, o que você faria? Vamos dar uma olhada nas edições passadas dos Jogos de Inverno e ver alguns gestos de espírito esportivo que também poderão ser vistos em Beijing 2022.

Bjørnar Håkensmoen - Turim 2006

Aconteceu na final feminina do esqui cross-country de velocidade por equipes na edição dos Jogos de Turim 2006. Dez equipes participaram, tendo como favoritas a Noruega, Suécia, Finlândia e Canadá.

Na terceira das seis voltas, o bastão para esquiar usado por Sara Renner (CAN) quebrou, o que a fez perder a liderança e cair para a quarta colocação. A primeira pessoa que reagiu ao incidente foi Bjørnar Håkensmoen, treinador da equipe norueguesa, que havia acabado de ultrapassá-la. Håkensmoen foi até Renner e a ofereceu um bastão reserva, o que ajudou a conduzir a equipe canadense para a medalha de prata. A favorita Noruega, no entanto, ficou de fora do pódio ao terminar a prova na quarta colocação com a dupla Ella Gjømle e Marit Bjørgen.

“O espírito Olímpico é a maneira como tentamos seguir”, disse Håkensmoen após a corrida. “Sem isso, estaremos em apuros. Todo esquiador, todo membro da delegação da Noruega segue isso."

"Se você ganha, mas não ajuda alguém quando deveria, que tipo vitória é essa?"

O mundo todo elogiou Håkensmoen pelo gesto, enquanto que a embaixada norueguesa no Canadá recebeu mais de 600 cartas, telefonemas e e-mails de agradecimento. O empresário canadense Michael Page doou 7400 latas de xarope de bordo para o Comitê Olímpico Norueguês, e a própria Renner enviou a Håkensmoen uma garrafa de vinho como forma de agradecimento.

Eugenio Monti - Innsbruck 1964

Rene Maheu, Diretor-Geral da UNESCO, dá o troféu Internacional de Fair-Play ao campeão de bobsled italiano Eugenio Monti, em 1965.
Foto: 2007 Getty Images

Eugenio Monti (ITA) é o bobsledder italiano mais bem sucedido da história, mas não apenas pelas medalhas que conquistou.

Na edição dos Jogos de Innsbruck 1964, a equipe britânica com Tony Nash e Robert Dixon foi bem nas duas primeiras descidas no trenó de 2 lugares. Entretanto, depois da terceira descida, Nash percebeu que faltava um parafuso no seu trenó e eles não tinham um para repor. Ao perceber isso, Monti levou um parafuso para a equipe britânica, que pôde realizar a descida. No final, Nash e Dixon deram à Grã-Bretanha a primeira medalha de ouro no bobsled, com Monti conquistando a de bronze.

Em resposta às críticas feitas pela imprensa italiana, Monti disse: "Nash não conquistou a medalha de ouro porque eu dei um parafuso a ele. Venceu porque ele foi o mais rápido."

Poucos dias depois, Monti mais uma vez demonstrou seu nível excepcional de generosidade quando ele e seus mecânicos ajudaram a consertar o eixo danificado de um trenó canadense na competição de quatro lugares. Sem a intervenção do italiano, a equipe do Canadá teria sido desclassificada. Em vez disso eles levaram o ouro, enquanto Monti e a equipe italiana, o bronze. Por esses gestos de espírito esportivo, Monti recebeu a medalha "Pierre de Coubertin" - o primeiro atleta a receber tal homenagem.

Quatro anos depois, em Grenoble 1968, Monti finalmente faturou o ouro no bobsled de 2 lugares, aos 40 anos de idade.

Nao Kodaira - Pyeongchang 2018

Nao Kodaira do Japão e Sang-Hwa Lee da Coreia do Sul, durante o 500m Individual feminino de patinação de velocidade em PyeongChang 2018
Foto: 2018 Getty Images

O evento da patinação de velocidade feminina de 500m em Pyeongchang 2018 foi um grande momento para o país anfitrião. Na República da Coreia, Lee Sang-Hwa (KOR) era a grande favorita para o tricampeonato Olímpico depois de Vancouver 2010 e Sochi 2014. No entanto, a principal rival de Lee, Nao Kodaira (JPN) estabeleceu um novo recorde Olímpico na prova em uma das baterias.

Mesmo Lee tendo feito um bom início na disputa da final, foi superada por 0,39s, ficando com a medalha de prata. A dor de haver perdido em seu próprio país, sendo a favorita, foi forte. Após o término da prova, Lee percorreu a volta de honra em lágrimas. Sua adversária e amiga Kodaira, ao vê-la, foi abraçá-la.

Dario Cologna - Sochi 2014

No esqui cross-country masculino clássico de 15km em Sochi 2014, o suíço Dario Cologna conquistou seu segundo ouro consecutivo do evento. Mas foi após a vitória que vimos seu verdadeiro espírito esportivo.

O último esquiador cruzou a linha de chegada 28 minutos após a vitória de Cologna. Roberto Carcelen (PER) começou a esquiar aos 35 anos de idade e foi o primeiro peruano a disputar os Jogos de Inverno, em Vancouver 2010. Semanas antes dos seus segundos Jogos Olímpicos em Sochi 2014, teve as costelas lesionadas durante treino, mas decidiu competir na Rússia mesmo sem recomendação médica.

A corrida - que já exige muito do atleta - tornou-se ainda mais difícil para o sul-americano, que terminou na 85ª colocação. Na linha de chagada, o esquiador nepalês Dachhiri Sherpa (NEP), penúltimo colocado, o recebeu. Supreendentemente Cologna, que esperou 28 minutos e ainda carregando os esquis, dirigiu-se até os dois e os cumprimentou.

Em PyeongChang 2018, Cologna fez o mesmo com o último colocado, German Madrazo (MEX), quando conquistou mais uma medalha de ouro.