O curling e a vida de Sérgio Mitsuo Vilela, atleta da seleção brasileira

O curling é um dos esportes que mais chamam a atenção dos brasileiros nos Jogos Olímpicos de Inverno. Outrora distante, o Brasil já possui uma seleção e lugar oficial para praticá-lo. O país não terá representante na modalidade em Beijing 2022, mas bastante coisa mudou em pouco mais de 10 anos, muito por conta da atuação - no gelo e fora dele - deste advogado paulistano. 

Virgílio Franceschi Neto
Foto: © WCF / Richard Gray

O curling foi apresentado ao jovem advogado Sérgio Mitsuo Vilela através dos Jogos de Inverno Vancouver 2010: "Acompanhava as transmissões. Por conta do fuso horário, no Brasil ele passava na televisão em horário nobre," conta Sérgio. O interesse surgiu e não desgrudou os olhos daquele torneio Olímpico. "Ainda vou jogar isso," pensava.

Meses depois e na cidade de Sérgio, São Paulo, ação publicitária de marca de cosméticos em movimentado shopping center usou o curling e permitiu o público interagir com o esporte. "Passei seis horas na fila para poder arremessar duas pedras," relembra Sérgio.

Da televisão e essa longa espera na fila até hoje, alguns anos se passaram. Pai de dois filhos e atualmente na Suíça, onde trabalha em um banco privado, Sérgio é um dos principais nomes do curling do Brasil e trabalha para ele de maneira incansável. Um empenho que fez deste brasileiro de 40 anos, recentemente, membro de dois conselhos da Federação Mundial de Curling (WCF, sigla em inglês para World Curling Federation).

O Olympics.com quis saber mais sobre Sérgio Mitsuo Vilela e sua ligação com o curling.

Sérgio Mitsuo Vilela, da seleção brasileira de curling

Algo do destino

O Brasil contribuiu muito para os números da audiência do curling nos Jogos de Vancouver 2010, o que causou espanto entre os organizadores. Um dos que não perdiam os jogos era Sérgio. Meses depois, jogava aquelas duas pedras da ação de publicidade mencionada no começo do texto.

O curling já havia o conquistado. De alguma maneira já tinha um lugar em seu coração. No entanto, praticá-lo e fazer dele parte importante da vida, era algo muito distante. Bastante.

Quis o destino que a esposa fosse transferida a trabalho para a Suíça anos depois, em 2013. Sérgio a acompanhou e ingressou no Doutorado em Direito Tributário na Universidade de Zurique, cujos alunos possuem grande envolvimento em atividades esportivas, entre elas, o curling. 

Com a modalidade guardada no coração, passou a jogar com os colegas acadêmicos. Saiu-se bem, segundo ele. Depois de uma temporada de treinos regulares, entrou em contato com a CBDG (Confederação Brasileira de Desportos no Gelo), que o convidou para um teste para a seleção do Brasil, que seria realizado no Canadá. Sem hesitar, viajou até lá e foi selecionado. Em janeiro de 2015 disputou o Pan-Americano.

Um currículo esportivo imenso. Foram três campeonatos mundiais e quatro Pan-Americanos pelo Brasil. Em 2019, nas eliminatórias para o mundial, uma vitória sobre a Dinamarca (país entre os 10 melhores do ranking), marco que Sérgio se orgulha bastante.

Sérgio Mitsuo Vilela, da seleção brasileira de curling

O curling para um curler

Sérgio é enfático ao ressaltar o espírito coletivo que o curling possui. A precisão do lançador, a visão geral do Capitão que observa a trajetória da pedra e o ritmo da varrição do gelo pelos colegas. A combinação disso tudo determina o sucesso de uma equipe. “Um xadrez sobre o gelo,” compara. 

O paulistano é atleta do Grasshopper (clube bastante conhecido pelo futebol profissional) e concilia o esporte com o trabalho: “O curling me mantém são,” comenta. Os jogos duram até três horas e meia e não permitem pensar em outra coisa. “O curling exige que você viva aquele momento somente,” complementa.

Ademais, o aspecto social da modalidade é uma regra não escrita, em que o time que ganha a partida paga uma rodada de cerveja para aquele que perde: “Fiz muitos amigos com o curling,” reflete.

Sérgio Mitsuo Vilela, da seleção brasileira de curling

Representar o Brasil é abrir um caminho

Além de amigos, o curling permitiu a ele representar o Brasil e de certa maneira sentir-se próximo mesmo a milhares de quilômetros de distância. Sérgio se emociona ao falar sobre o que significa vestir o “verde-louro” do uniforme do Brasil: “Não me caibo de orgulho. É difícil explicar. Estou contribuindo um pouquinho com a pátria.”

O país está ainda distante de ser protagonista nos esportes de inverno. Sérgio tem noção disso e sabe que a participação Olímpica não vai acontecer tão cedo. “Não é a nossa geração que vai chegar nos Jogos, mas é preciso abrir um caminho para os mais novos que sim, vão conseguir,” ressalta ele.

A representação, portanto, não fica restrita apenas ao gelo. Vai muito além. Por isso que passou a se dedicar nos bastidores do esporte, tanto na Confederação Brasileira de Desportos no Gelo (CBDG) quanto na WCF. “É pelo gosto de um serviço bem feito. Antes de eu estar na seleção, não se pensava em jogar curling no Brasil. Hoje, já temos três pistas dedicadas ao esporte em São Paulo, em que os atuais jogadores da seleção trabalharam diretamente para que elas fossem realidade. São essas pistas que formam a nova geração…e essa molecada vai chegar lá.” Sérgio está se referindo à Arena Ice Brasil, em São Paulo.

Um outro orgulho: a Arena Ice Brasil

O recinto esportivo, inaugurado em dezembro de 2019, na capital paulista, a Arena é, ao lado de Naseby, na Nova Zelândia, um dos dois únicos lugares no Hemisfério Sul com pistas oficiais e específicas para a prática do curling.

Financiado pela Federação Mundial (WCF), a arena é exemplo de parceria entre ela e diversos investidores privados, administrada pela CBDG. Sérgio trabalhou intensamente para que ela fosse realidade, primeiro ao convencer a WCF da necessidade de se ter um centro de treinos para atrair novos praticantes e fazer a modalidade crescer. Depois disso, foram dois anos para captar recursos e um ano e meio para construí-la.

LEIA: Três lugares no Brasil para praticar esportes de inverno

Arena Ice Brasil
Foto: CBDG

Sonhos para o curling do Brasil

Antes do qualificatório para o Pré-Olímpico realizado em outubro na Turquia, Sérgio dedicava aproximadamente seis horas por semana no gelo. O trabalho no banco e com o esporte fazem com que muitas vezes esse tempo seja drasticamente reduzido. O resultado é mais do que visível, com seus colegas do curling e da CBDG tirando do papel todos os planos para a modalidade.

“O meu sonho é ver o Brasil disputando uma medalha Olímpica no curling. Ver o Brasil lá. Trabalho para que esse sonho seja realidade,” diz. “Trabalho também para que se tenha um campeonato brasileiro nas categorias A e B,” acrescenta.

O Sérgio de 2010 que viu o curling dos Jogos de Vancouver pela TV, sequer pensava em morar fora do Brasil, que esse esporte seria parte importante da sua vida e muito menos que os brasileiros o jogariam em pistas oficiais, na mesma São Paulo em que um dia ele ficou na fila por seis horas num shopping center para arremessar duas pedras.

Sem arrependimentos

Durante a entrevista Sérgio contou alguns acontecimentos da sua vida que, conectados, permitem enxergar o quanto é envolvido e dedicado ao curling. Uma vez estabelecida essa conexão, percebe-se que uma das suas características mais marcantes é a de fazer acontecer, de realizar. Afinal, praticar e gerir um esporte de inverno no Brasil não é tarefa fácil, e o advogado paulistano foi além, ajudou a erguer uma instalação oficial para uma modalidade praticada no gelo.

Por conta dessas sucessões de fatos que acabaram se encaixando e permitiram-no fazer do curling parte importante do seu cotidiano, ao ser perguntado se a vida é "curiosa", ele conclui: “É sim, na verdade a vida é repleta de ramos de árvore que vão se abrindo. São as escolhas. Procuro não me arrepender delas e a minha família fica feliz ao me ver feliz. Justifica todo o esforço que faço e por isso vale a pena.”

Trata-se de um legado que Sérgio quer deixar. Quando chegar o dia de se “aposentar" da seleção brasileira de curling, ele certamente terá deixado o uniforme verde-louro em um lugar muito mais alto do que quando recebeu.

E quem vier no lugar dele vai ter que deixá-la em um lugar ainda mais acima. No mínimo.

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