Lucas Braathen: a estrela norueguesa com raízes brasileiras

É uma das grandes revelações do esqui alpino mundial e vai em busca da medalha em Beijing 2022: "Você não esquia nos Jogos para ser top 15 ou top 10...é para estar entre os três primeiros, ou nada. É para isso que eu trabalho." Com mãe brasileira e pai norueguês, o Olympics.com fala da conexão de Lucas com o Brasil. 

Virgílio Franceschi Neto

Ele surpreendeu o mundo ao obter o primeiro pódio em Copa do Mundo FIS de esqui alpino no slalom gigante em Soelden, na Áustria, em outubro de 2020, aos 20 anos. Não era apenas primeiro pódio, mas a primeira vitória também.

"Primeira vitória no primeiro evento da temporada é inacreditável. Fui com tudo na segunda corrida, não estava aqui para o quinto lugar, eu queria o primeiro," ele disse para o Olympics.com após a prova.

Nascido em Oslo, ele é Lucas Pinheiro Braathen. Um tanto norueguês e um tanto brasileiro, compete pela Noruega mas leva o Brasil no coração. Apaixonado pelo futebol, praticar esportes de gelo e neve é caminho natural para quem nasce e cresce em um dos países com maior palmarés em Jogos Olímpicos de Inverno. Não foi diferente para Lucas.

O norueguês Lucas Braathen com um torcedor durante a Copa do Mundo FIS de esqui alpino, em Kitzbuehel, Áustria, em janeiro de 2020.
Foto: 2020 Carsten Harz

O começo no esqui alpino

Aos nove anos de idade, Lucas experimentou o esqui alpino por sugestão do pai, para praticar um esporte nos meses mais frios, já que o futebol fica com as atividades suspensas devido ao rigoroso inverno. "Eu não queria esquiar! Meu pai me levava, mas não gostava, era muito frio. Chegava a falar que estava doente para não ir! Resolvi tentar e na primeira descida eu vi que era muito ruim em relação às outras crianças, mas nas outras tentativas eu vi que estava melhorando e resolvi continuar," disse Lucas para o site "Olimpíada Todo Dia".

Nunca mais parou.

Para quem vive na Noruega, ele começou relativamente tarde na modalidade, mas os resultados começaram a aparecer. Aos 18 anos conseguiu pódio no campeonato adulto norueguês e, em 2019, duas medalhas no mundial júnior, mesmo ano em que se firmou na equipe nacional. Compartilha em suas redes sociais uma rotina de treinos intensos e bastante trabalho. Uma evolução constante que o levou à primeira vitória em copas do mundo FIS, em Soelden.

A mentalidade

Como todo atleta de rendimento, ele está bastante exposto aos resultados, vive a alta competição e está sujeito a altos e baixos, como a séria lesão que sofreu no joelho em janeiro de 2021. Por isso o trabalho não apenas se restringe à neve. É preciso ser forte mentalmente.

Durante a recuperação, procurou não pensar negativamente e sim em observar o lado positivo daquilo que estava passando, em reparar mais em seu corpo e - sobretudo - fazer planos em longo prazo. Daí vem algo que partilha: "Manifeste as suas ambições. Estabeleça os seus objetivos, determine um prazo para que isso aconteça. Isso vai aumentar a possibilidade para que aconteça," ele disse em entrevista para o Olympic Channel. "Na cultura norueguesa posso parecer pretensioso. Nunca vou sair falando que sou muito bom em algo, mas é uma questão de ser honesto consigo mesmo e com suas ambições...realmente posso ser o melhor esquiador, caso contrário eu não praticaria o esqui," complementa.

Essa confiança também é proporcionada através do convívio com os colegas da equipe nacional norueguesa, os "Attacking Vikings_". "Não somos divididos. Somos todos um, uma unidade. Fazer parte dela significa dar tanto quanto receber. Como temos menos recursos do que os outros países, construímos uma cultura de colaboração que vai nos levar mais longe que os demais. Progredir enquanto uma unidade vai nos levar ao próximo passo e entender o porquê de darmos esse passo," reflete Lucas.

Estabelecer os objetivos e manifestá-los. Sem falar do comportamento colaborativo de toda a equipe. Fatores fundamentais para que esse norueguês com raízes brasileiras retornasse em grande estilo para a temporada 2021/2022, terminando em sétimo o evento de abertura da temporada, também em Soelden, mas com o melhor tempo na segunda descida.

É nesse ritmo que ele está às vésperas de participar dos Jogos Olímpicos de Inverno Beijing 2022 e que o conecta ao país da sua mãe, Alessandra: o Brasil.

As raízes brasileiras

A manifestação das ambições, característica marcante de Lucas, seria recebida no Brasil de uma maneira distinta de como é na Noruega. É isso que também o aproxima aos brasileiros. "Adoro esse jeito de brasileiro. Tem mais calor, mais amor. Eu adoro. Essa é a única coisa que não gosto da Noruega. Quero que as pessoas sejam mais calorosas, quero encontrar as pessoas, quero abraçar," ele disse para o blog "Olhar Olímpico", do UOL.

Não só isso o conecta ao país natal de sua mãe. Muito da sua habilidade com os esquis e sensibilidade com os pés ele reconhece virem do surfe e também do futebol, modalidades que pratica e em que o Brasil possui bastante sucesso. Lucas por muito tempo jogou futebol, que o ensinou, por exemplo, a buscar a excelência: "Você tem que fazer muito mais que o seu colega. Treinar e cumprir o seu papel todos os dias vai ajudar a ser um sólido jogador, mas você não será o melhor por isso," ele disse em entrevista ao Eurosport.

Costumava visitar o Brasil com mais frequência para ver seus tios e avós, entre Campinas e São Paulo. Curte bossa nova e a MPB. Fizeram-no torcer para o Palmeiras, mas é mesmo fã da seleção brasileira e do Manchester United, clube inglês em que atuaram vários noruegueses, como Solskjær.

Apesar da agenda apertada e mesmo sem visitar o lado brasileiro da família há um bom tempo, Lucas não deixa de manifestar o seu carinho e a conexão com o Brasil. Deixa claro que o lado verde-e-amarelo influencia muito sua personalidade e é muito grato por isso, tanto é que a gola do seu equipamento de competição tem listras com as cores da bandeira brasileira.

Para o "Olimpíada Todo Dia" ele resume em uma frase todo o seu amor aos esportes de neve e ao Brasil: "Quero mostrar um pouco dos esportes de neve para os brasileiros e sei que meu vô e minha vó irão gostar de ver notícias minhas também."

Nesse ritmo de muito trabalho e com esta forte personalidade, eles certamente verão. Quem sabe no lugar mais alto do pódio dos Jogos Olímpicos de Inverno, com esta gola que carrega as cores do Brasil.

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