Leony quer acrescentar o gingado brasileiro ao breaking Olímpico: ‘Tem que ter nosso saborzinho’

Integrante da cena paraense do novo esporte Olímpico, o b-boy de 26 anos coleciona importantes resultados rumo a Paris 2024, acrescentando influências da capoeira, do carimbó e do tecno brega ao hip hop. 

Virgílio Franceschi Neto e Sheila Vieira
Foto: Little Shao/Red Bull Content Pool

Um dos grandes polos nacionais do breaking, esporte que faz sua estreia em Jogos Olímpicos em Paris 2024, é o estado do Pará. Foi de lá que surgiu um dos principais nomes do Brasil na modalidade, Leony Pinheiro.

Neste domingo, Leony venceu o Red Bull BC One Brasil pela quarta vez, em São Paulo, e vai disputar a final internacional do evento, em Nova York, nos EUA. No feminino, Maia derrotou a paraense Mini Japa e também vai competir nos EUA. Esses nomes e muitos outros devem brigar pelas primeiras vagas Olímpicas brasileiras do breaking.

Em entrevista ao Olympics.com, o b-boy de 26 anos conta que toda essa história começa na Praça São Brás, em frente ao mercado tradicional de Belém de mesmo nome, onde um jovem Leony estava com seu primo, ambos caratecas.

“Ele chegou em mim e falou ‘Primo, eu vi um cara que girou cinco minutos na cabeça e não morreu’. E aí eu falei ‘mentira’, e ele disse que era sério. O cara levantou andando. Então eu falei, ‘vamos lá, eu quero aprender também’. E aí a gente foi no outro final de semana. Eu vi a primeira vez com os meus próprios olhos. Me apaixonei. No primeiro dia, eu falei: ‘É isso que eu vou fazer’”.

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'Consigo viver de um talento como pessoa'

Torcedor do Paysandu, Leony cresceu na periferia de Belém, no bairro 40 Horas. “Quando eu dobrava a esquina, quando eu abria a porta da minha casa, é assim até hoje, eu não via um centro cultural. Eu não via nada disso. Eu via alguém vendendo droga. Então a probabilidade de eu ter aquilo como exemplo para minha vida era muito grande. Quando eu conheci o breaking, isso simplesmente mudou. Eu falei, ‘tem outros caminhos’. Eu consigo viver de um talento como pessoa”, afirmou.

“O hip hop ele tem esse poder de entrar dentro da periferia mesmo, de ser bem aceito por aquele grupo de pessoas, aquele espaço, aquela bolha periférica, está ligado? E não foi diferente comigo”, disse. “Com certeza, o hip hop salvou minha vida”.

Aos 15 anos, Leony viajou para o Battle of the Year, um evento com os maiores da história, na França. Foi a maior motivação para acreditar no seu potencial.

“Quando eu também vi a estrutura que lá fora do Brasil existia, aqui está mudando, graças a Deus. Mas antes era muito ruim você querer viver de breaking, ter isso como seu trabalho, porque não tinha renda. As pessoas não pagavam por isso. Então, quando eu fui pra lá, pra fora, para a Europa, eu vi que pagavam, que valorizavam, eu falei: ‘Então no Brasil vai dar, tem como’. E aí eu voltei com essa cabeça. Falei, ‘É isso que eu vou fazer pro resto da minha vida. Esse vai ser meu trabalho’”.

Leony Pinheiro nas ruas de São Paulo.
Foto: Little Shao/Red Bull Content Pool

Você só vai encontrar em Belém do Pará

Por mais que hoje em dia Leony viaje pelo mundo, ele nunca vai esquecer de onde veio. O b-boy quer trazer a identidade brasileira para a prática que nasceu no Bronx, em Nova York.

“O breaking bebeu de várias fontes, tanto do lado das artes marciais como de outras danças também. A gente tem muitos passos de jazz, de sapateado, danças indígenas. Uso o caratê de inspiração. A capoeira tem tudo a ver. A gente usa essa movimentação, então eu até tive uma facilidade, porque eu já fazia a luta quando eu comecei a treinar o breaking”, explicou.

Estado de muitas manifestações culturais importantes, o Pará tem se destacado no cenário nacional.

“Cada estado vai pegando a sua cultura e vai linkando ela ao breaking. No Pará, não é diferente. Eu costumo usar o carimbó, o tecno melody [também conhecido como tecno brega]. Uso passos e fundamentos dessas danças dentro do meu breaking, que é pra dar um charme e aqui e ali, tá ligado? Então eu uso muito isso através dessa arte, dessas danças e da minha própria, da parte indígena, que também é muito forte. Então eu conheço, já fui em aldeias e aprendi passos e tudo mais. Então eu tento colocar isso dentro do meu breaking também. Para diferenciar, tem que ter o nosso saborzinho”.

Esporte é cultura

Agora que o breaking é um esporte Olímpico, Leony sabe que as exigências serão maiores. Ele treina breaking três vezes por semana e faz trabalho físico e mental nos dias restantes. Não se trata de perder a essência do esporte, mas sim incorporar sua cultura nele.

“Não é porque agora é um esporte que o breaking deixou de ser cultura. Então eu vejo documentário, vejo filme, eu vejo quais são as entrevistas, vejo o conteúdo porque, apesar de ser um esporte agora, eu sempre vou defender a cultura e a cultura hip hop, né? Isso me ajuda como como atleta. Nesse sentido, ter esse conhecimento, entender mais da minha dança, porque se eu entendo o que eu faço, eu tenho mais de discernimento para fazer de maneira correta”, afirmou o paraense.

Para Leony, a entrada do breaking no programa Olímpico é uma maneira de retirar o estigma negativo do esporte, assim como aconteceu com o skate.

“A gente é um esporte, é uma arte, é uma cultura. Não é aquela galera vagabunda que as pessoas pensam, não é aquela coisa marginalizada que infelizmente algumas pessoas ainda têm essa ideia. É um esporte e uma cultura que salva muitas vidas. Então esse espaço, essa visibilidade, foi muito positivo nesse sentido”, acredita.

Pai de João Miguel, de dois anos, Leony quer estar em Paris para dar orgulho ao filho. “Sou um cara muito apegado à família. Agora faço isso também por ele”.

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