Isaquias Queiroz: 'Meu sonho é ser o maior atleta Olímpico do Brasil'

Desde Halifax (Canadá), onde se prepara para o Mundial de Canoagem Velocidade, o canoísta conversou com o Olympics.com sobre o ciclo que se inicia rumo a Paris 2024, onde quer entrar para a história.

Virgílio Franceschi Neto
Foto: 2021 Getty Images

Campeão Olímpico e hexacampeão do mundo, Isaquias Queiroz está em Halifax (Canadá), para competir no C-1 500 e no C-1 1000 em mais uma disputa do Mundial de Canoagem Velocidade, de 3 a 7 de agosto.

É a competição mais importante depois do título em Tóquio 2020 no C-1 1000. O início de um ciclo que rumo a Paris 2024 que pode consagrá-lo como o maior atleta do país em Jogos. "O que mais o deixa motivado é o sonho de me tornar o maior atleta Olímpico do Brasil," disse.

Dono de quatro medalhas Olímpicas, ele quer na França conquistar mais duas e superar as cinco dos velejadores Robert Scheidt (duas de ouro, duas de prata e uma de bronze) e Torben Grael (duas de ouro, uma de prata e duas de bronze).

Isaquias falou com exclusividade para o Olympics.com sobre como é ser campeão Olímpico, mas não só. Refletiu sobre a carreira, os anseios e o que mais o motiva em seguir para mais uma edição de Jogos. Não tem sido fácil. Mais da metade dos seus 28 anos foram dedicados ao esporte e à seleção brasileira. Quase desistiu. Sabe que está cansado.

No entanto, é movido por um sonho e por tudo o que tem construído ao longo de uma belíssima carreira. Afinal, tem um nome a zelar. "É história. E história ninguém consegue apagar", colocou.

Confira o que tem sido e o que se pode esperar dessa história que ele já retomou a escrita.

O medalhista de prata HAO Liu (CHN), Isaquias Queiroz, ouro, e Serghei Tarnovschi (MDA), bronze. O pódio da canoagem de velocidade C1 dos Jogos Olímpicos Tóquio 2020.
Foto: 2021 Getty Images

Do Rio para Tóquio, cinco anos intensos

Na Rio 2016, obteve três medalhas. Bronze no C-1 200m e duas vezes prata no C-2 1000m e C-1 1000m. O ouro escapou-lhe por pouco e isso não saiu da sua cabeça. Teria nova oportunidade quatro anos de pois, em Tóquio.

Por causa da pandemia, acabaram sendo cinco anos, o que acabou exigindo muito mais. No caminho, a perda do seu grande mestre, o treinador espanhol Jesús Morlán, em 2018, em decorrência de um câncer no cérebro. Nesse momento ele se lembra aos risos do que Morlán disse a ele após as medalhas Olímpicas do Rio de Janeiro, que "eram como chocolate, quanto mais se come, mais se quer."

Tinha perdido um amigo e sentia-se cansado. Estava longe da família e das pessoas queridas. Pensou em parar.

"Em janeiro de 2021, voltei pra casa, e quase não retornei depois para os treinos. Estava sobrecarregado, a cabeça estava a mil. Conversei com o COB (Comitê Olímpico do Brasil) e com o treinador (Lauro Pinda), que disseram: 'treina para Tóquio, depois vê o que você quer para a sua vida'."

A esposa Laina, também se posicionou. Disse apoiá-lo na decisão que fosse, mas que não o via fora dos barcos.

Havia também o mais importante, segundo ele. Prometera à viúva de Jesús Morlán, Tania, mais uma medalha Olímpica em honra ao seu grande treinador. Foi o que mais pesou. "Foi a maior obrigação, de assumir essa responsabilidade," declarou.

Todas elas, palavras determinantes para Isaquias. Meses depois, o ouro em Tóquio 2020 tornou-se realidade. Mas deixou claro: "Tornar o maior atleta Olímpico do Brasil e escrever o nome na história é a minha maior motivação."

"É um alívio enorme tirar esse peso e uma sensação maravilhosa. É fácil ser campeão mundial, mas para ser campeão Olímpico é preciso uma preparação a mais. Quando você chega lá e ganha o ouro, representar o Brasil e o Jesús Morlán que tinha falecido em 2018, que tinha o sonho de me tornar um campeão Olímpico, é gratificante," resumiu Isaquias.

Isaquias Queiroz durante a segunda bateria da canoagem de velocidade C1 1000m dos Jogos Olímpicos Tóquio 2020.
Foto: 2021 Getty Images

Rumo a Paris 2024

Depois de Tóquio, seu treinador Lauro Pinda perguntou-lhe se queria ir para Paris 2024. "Eu disse que sim, que quero ganhar de novo porque é uma sensação maravilhosa," respondeu.

Aliviado com as conquistas do ouro Olímpico, talvez as coisas fossem parecer mais fáceis agora.

Não. "Para ter sido ouro em Tóquio, eu tive que ser melhor do que no Rio de Janeiro em 2016," enfatizou.

Em Paris, portanto, terá que ser melhor que foi na capital japonesa.

Além disso, terá que melhorar a cada treino, o que é chamado de 'histórico'. A cada ano que passa, mais difícil fica. A idade avança, o que compromete superá-lo. "Quero evoluir a cada treinamento. Neste ano é mais tranquilo, a preparação tem sido mais leve para compensar 2021, para descansar o corpo, caso contrário não aguentamos. Quero somente superar o histórico," afirmou.

No entanto, os próximos anos serão ainda mais difíceis para ultrapassar qualquer histórico já feito, uma vez que na temporada 2020/2021 esteve em sua melhor forma, segundo ele.

Quer estar inteiro para Paris e lá somar mais duas medalhas Olímpicas à sua repleta galeria. "Conquistar a sexta medalha Olímpica, jogando limpo com os meus adversários, isso vai ser muito importante para mim," confessou Isaquias.

Um ciclo que já começou. Na Copa do Mundo de Canoagem Velocidade, realizada em maio na República Tcheca, mesmo doente foi prata no C-1 500m e ficou em sexto lugar no C-1 1000m.

O Mundial de Canoagem Velocidade

Em seu mais importante compromisso depois dos Jogos de Tóquio, Isaquias Queiroz está em Halifax, na costa oriental do Canadá, para a disputa do Mundial de 3 a 7 de agosto. Vai em busca do sétimo título e é o canoísta a ser superado, mas não se incomoda.

"Não sinto pressão. Não adianta ser campeão Mundial e não ser Olímpico. Prefiro me guardar para os Jogos. Vão se lembrar de quem é campeão Olímpico. Hoje o meu objetivo é treinar para Paris. Meu objetivo é muito maior que o Mundial", revelou.

O treinamento tem exigido muito de Isaquias, que em Halifax vê possibilidades de ouro no C-1 1000. Como principais rivais, o baiano mencionou o tcheco Martin Fuksa, o romeno Catalin Chirila e o húngaro Adolf Balasz. "O que evoluí de lá pra cá (Copa do Mundo, em maio) vai me colocar de igual para igual com o Fuksa", comentou.

Sem pressa, parece saber que tem que diminuir o ritmo por agora para intensificá-lo nos próximos anos. "Vou esperar bastante pelo ano que vem, vai ser mais decisivo e mostrar como cada um vai estar. Em 2017 fiquei em 3º, evoluí em 2018 e em 2019 fui campeão mundial. Um bom planejamento faz toda a diferença," ressaltou.

O descanso e o equilíbrio fazem parte deste planejamento. Uma mente sã em um corpo são.

Isaquias Queiroz conduz a bandeira brasileira na seção "Heróis dos Jogos" durante a Cerimônia de Encerramento dos Jogos Olímpicos Rio 2016.
Foto: 2016 Getty Images

O canoísta da terra das canoas

Conheceu a canoagem aos 11 anos na sua natal Ubaitaba, na Bahia. Banhada pelo rio de Contas, o nome da sua cidade em tupi-guarani significa "terra das canoas". "Sem Ubaitaba eu não seria o Isaquias. Eu não conheceria a canoagem. Nasci no lugar certo e no momento certo", disse.

Dois anos depois, era parte da seleção brasileira. Abriu mão dos amigos de infância, da família, do aconchego do lar. Isaquias viu na canoagem uma oportunidade de vida e seus treinadores viram-no como um futuro campeão.

Sem muitas alternativas, desde muito cedo soube o dar valor à evolução e o preço de cada conquista.

"Abandonei tudo. Família, amigos. Abandonei a minha vida. Não tenho feriado. Natal? Só o dia de Natal. Tive que abandonar tudo para me dedicar ao esporte. Metade da minha vida eu me dediquei à seleção. Não posso me dar ao luxo de chegar a um campeonato e perder," disse com firmeza. "Quero ganhar sabendo que me dediquei no treinamento. E quero perder sabendo que me dediquei também e quem ganhou de mim fez melhor do que eu," acrescentou.

Uma história que leva à vitória

Os Jogos Olímpicos ensinaram a Isaquias Queiroz o valor do seu trabalho. Graças ao seu esforço a canoagem do Brasil é reconhecida mundo afora.

Com experiência e a maturidade de anos no esporte de rendimento, sabe da reputação que possui e da responsabilidade que tem nas suas falas e ações. Tem deixado um legado. "Estamos construindo uma história. Ao longo dos anos uma tradição vem se formando. Antes de mim foram vários, a geração que está por vir vai ter uma obrigação porque o Isaquias já venceu. Então comparações vão surgir e a evolução vai vir. Os atletas que estão vindo têm a consciência disso," comentou.

Uma história que forma uma tradição. Uma tradição que faz aumentar a dedicação. Esta dedicação é o empenho responsável por mais vitórias.

Um dia quer ter uma vida mais tranquila e curtir mais o filho Sebastian, a esposa Laina e a mãe, Dilma. De preferência em Ubaitaba, para onde quer voltar.

Mas antes, tem um compromisso em Paris 2024 e lá tornar-se o maior atleta Olímpico que o Brasil já teve.

"Talvez sejam os meus últimos Jogos, mas quero que o meu filho esteja lá para ver o pai dele subindo no pódio", terminou.

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