Jogos Olímpicos Paris 2024

Gabriel Medina: 'Não tenho segredos sobre isso, ser medalhista Olímpico é minha meta' - Exclusivo

Por Lena Smirnova
9 min|
Gabriel Medina wins ISA World Surfing Games 2024

Foto por Jersson Barboza/ISA

O Olympics.com conversou com o tricampeão da WSL depois que ele conquistou o título masculino no ISA World Surfing Games 2024 e ajudou o Brasil a garantir uma terceira vaga masculina para Paris 2024. Essa vaga conquistada no último momento pode colocar Medina de volta no caminho certo para ganhar o ouro Olímpico que ele perdeu por pouco há três anos.

Na praia de Arecibo, os aplausos são estrondosos quando Gabriel Medina se dirige para o seu palco - a vasta extensão do Mar do Caribe, com um conjunto de ondas agitadas servindo de cenário.

As câmeras acompanham todos os seus passos, os outros atletas viram a cabeça e os espectadores inclinam-se sobre as barreiras para ver melhor o tricampeão mundial da WSL.

Medina parece alheio à comoção que provocou.

De pé sobre uma pedra na superfície da água, com uma prancha de surfe debaixo do braço, Medina faz uma pausa para um momento de calma e oração. O líder da equipe brasileira não precisa de ser lembrado de que o seu destino Olímpico depende do que aconteceria nessas águas nos próximos 30 minutos.

Ele ergue o olhar para o mar e, em seguida, rema calmamente.

"É por isso que a gente treina, para chegar nessas horas decisivas e estar 100% e tranquilo", disse Medina ao Olympics.com depois. "Eu me senti calmo, eu sabia que eu precisava fazer o meu trabalho."

O "trabalho" que Medina se propôs a fazer parecia uma cena tirada diretamente de um filme de ação.

Logo depois que a campainha soou na final masculina dos ISA Games 2024 de Surfe, em Porto Rico, o brasileiro lançou uma série de aéreos que pareciam impossíveis para um ser humano aterrizar. Na praia, a multidão explodia em aplausos e um helicóptero sobrevoava ocasionalmente a onda para ter uma visão aérea de um dos maiores surfistas do mundo.

Ao emergir da espuma no final desse espetáculo alucinante, Medina não apenas conquistou o título de campeão masculino, mas também garantiu ao Brasil uma terceira vaga masculina, extra, aos Jogos Olímpicos de 2024.

O Olympics.com conversou com a estrela do surfe para descobrir qual é a próxima coisa pela qual ele está lutando.

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Gabriel Medina: do fascínio pelos Jogos Olímpicos na infância ao desgosto Olímpico

Dois garotos estavam jogando pedrinhas na água na praia de Arecibo, a apenas algumas centenas de metros do local de competição dos Jogos Mundiais de Surfe ISA 2024 no Finals Day, em 3 de março.

Eles pararam quando viram Medina remando para a água.

Houve um tempo, não muito distante, em que a visão de um atleta Olímpico também fazia o brasileiro de 30 anos parar e olhar com admiração.

"Quando eu era pequeno, voltando da escola, me lembro que parava para assistir [aos Jogos Olímpicos] na TV.", lembrou Medina. "Era um programa em família, vendo a natação, torcendo pelo Brasil. Eu não sabia direito quem estava competindo, mas me lembro torcendo pelo meu país. Essa é minha primeira memória das Olimpíadas. Em casa, com a minha família e torcendo."

"Gosto de futebol, tênis, vôlei, gosto de basquete. Gosto do esporte no geral, existem lindas histórias de superação, eu admiro muito isso."

A própria jornada olímpica de Medina é repleta de superação.

Ele se classificou para os Jogos de Tóquio 2020 com facilidade por meio do ranking da Liga Mundial de Surfe (WSL) de 2019. Foi a temporada seguinte à que Medina ganhou seu segundo título da Liga e ele estava em ótima forma, terminando em segundo lugar no ranking daquele ano.

Sua participação em Tóquio 2020, no entanto, foi cheia de desgosto, pois Medina caiu para o japonês Kanoa Igarashi na semifinal e depois perdeu a medalha de bronze para o australiano Owen Wright.

Quando Medina conquistou o terceiro título mundial de sua carreira, um mês e meio após os Jogos, foi um lembrete doloroso para todos os seus fãs de que o título Olímpico poderia facilmente ter sido dele.

Com a tensão mental adicional do revés Olímpico, Medina optou por fazer uma pausa para cuidar da saúde mental nos meses seguintes. Ele ficou ausente das competições de setembro de 2021 a maio de 2022 e falou abertamente sobre como lidar com a depressão.

O tempo de descanso valeu a pena quando Medina retornou às competições com terceiros lugares consecutivos. Ele também conquistou uma vitória no Margaret River Pro na temporada seguinte.

O mundo do surfe percebeu: Gabriel Medina estava de volta.

"Me sinto 100% hoje", disse Medina sobre seu estado mental atual. "Todos esses anos tem sido muito divertido. Tenho aprendido muito comigo e cada vez mais conhecendo eu mesmo. Então fico feliz de me entender melhor hoje e levar as coisas do melhor jeito possível, que eu me sinta bem."

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A montanha-russa do Taiti: como a "onda favorita" de Gabriel Medina o decepcionou

Outra jornada Olímpica começou para Medina depois de seu retorno à competição, mas, assim como em Tóquio 2020, o sonho Olímpico parecia ter escapado ao homem que dominou o Championship Tour.

Atrás dos também brasileiros Filipe Toledo e João Chianca no ranking da WSL em agosto de 2023, Medina precisava de um desempenho excelente no Tahiti Pro para garantir uma cota para os próximos Jogos Olímpicos.

Ele perdeu a chance por uma margem mínima ao terminar em segundo lugar em uma final contra o australiano Jack Robinson, na mesma onda em que esperava se tornar olímpico pela segunda vez.

Apenas 0,66 ponto foi o que separou o tricampeão mundial da classificação Olímpica.

"Fiquei muito triste depois da final no Taiti no CT no ano passado", disse Medina. "Jamais teria escrito a história desse jeito que foi. Obter essa vaga foi muito sofrido".

Como os Comitês Olímpicos Nacionais têm autoridade exclusiva sobre a representação de seus respectivos países nos Jogos Olímpicos, a participação dos atletas nos Jogos de Paris depende de seus CONs selecioná-los para representar sua delegação em Paris 2024.

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Equipe dos sonhos impulsiona Gabriel Medina na última eliminatória Olímpica

Restava apenas uma chance para Medina garantir uma cota para Paris 2024, que era nos Jogos Mundiais de Surfe ISA 2024. Dessa vez, no entanto, seria preciso mais do que seus próprios esforços para conquistar a cobiçada vaga.

Todos os surfistas brasileiros masculinos em Porto Rico - Yago Dora, Toledo e Medina - teriam que avançar na competição para chegar ao topo do ranking da equipe masculina.

Essa vibração de equipe ficou evidente a partir do momento em que a equipe brasileira montou seu quartel-general não oficial - uma explosão brilhante de camisas amarelas com bandeiras tremulantes e os incentivos mais barulhentos- na praia de Arecibo. Os companheiros de equipe não perdiam as baterias uns dos outros e corriam para o caminho rochoso que levava ao mar para entoar o canto característico da equipe.

"Nossa equipe é muito unida", disse Toledo, duas vezes campeão mundial, ao Olympics.com. "Sempre almoçamos juntos, vamos surfar juntos. Quando todos estão juntos, é muito legal, porque acabamos nos divertindo. Todos brincam e se divertem e isso acaba se tornando um ambiente mais leve que também se traduz na competição na água."

Essa atmosfera alegre parece ter contagiado Medina também. Apesar de tudo que estava em jogo na última eliminatória olímpica de surfe, o líder brasileiro parecia relaxado durante toda a competição.

"Gabriel é um dos caras mais engraçados. Ele está sempre fazendo piadas, brincando com as coisas", disse Toledo. "E é isso. Nós deveríamos estar nos divertindo, e estamos felizes porque fazemos tudo certo, nos sentindo muito leves."

"Foi muito importante trabalhar em equipe, nesse espírito Olímpico", concordou Medina. "Podemos trabalhar entre amigos e é muito importante isso para o surfe."

Cada uma das sete baterias invictas de Medina até a final foi seguida por uma comemoração barulhenta na praia.

Seus companheiros de equipe vestidos de amarelo e os membros da equipe também foram os primeiros a receber Medina quando ele saiu vitorioso da final masculina contra o marroquino Ramzi Boukhiam e os franceses Kauli Vaast e Joan Duru no domingo, 3 de março.

A vitória de Medina deu ao Brasil pontos suficientes para liderar o ranking masculino e conquistar a terceira vaga masculina para Paris 2024.

Depois de seu feito heroico em Porto Rico, é difícil imaginar que essa vaga seja oferecida a outro atleta. Medina, por exemplo, está confiante de que estará lutando pelo ouro quando a próxima competição Olímpica de surfe começar em 27 de julho.

"Hoje foi um dia muito especial para mim, deu tudo certo, feliz por ter conseguido essa minha vaga para os Jogos Olímpicos", disse ele. "Claro que eu dependia de um time, mas todos ali competiram com o coração e foram uma equipe excelente e fico feliz por haver feito parte dela.

"Era um sonho poder estar no Taiti com o time brasileiro, a gente conseguiu realizar esse sonho."

Gabriel Medina x Teahupo'o: a próxima busca Olímpica pelo ouro

Graças ao fato das surfistas brasileiras também estarem no topo do ranking da equipe feminina nos Jogos Mundiais de Surfe ISA de 2024, o Brasil será o único país nos Jogos Olímpicos de 2024 com seis vagas de surfe.

Mas Medina não está satisfeito em se contentar com o marco de participação recorde nos Jogos. Ele quer se vingar de seu quarto lugar em Tóquio 2020 e hastear a bandeira brasileira tão alto quanto em Arecibo.

"Dei o meu 100% aqui, evento por evento, passo a passo", disse Medina. "Agora é recomeçar do zero rumo a Paris."

O rosto do surfista se ilumina sempre que ele fala sobre Teahupo'o. O local da próxima competição Olímpica de surfe é uma das ondas mais pesadas e perigosas do mundo ou, como Medina a chama, "minha onda favorita no circuito".

Devido ao seu sucesso lá, é fácil entender o porquê.

Medina venceu as etapas do Taiti no WSL Championship Tour em 2014 e 2018, e terminou como vice-campeão em 2015, 2017, 2019 e 2023. Em 2016, ele foi o terceiro colocado e, em 2012, o quinto.

Um ouro olímpico em Teahupo'o pode ser apenas o suficiente para saciar o apetite ambicioso do surfista.

"Quero manter o que estou fazendo, com foco e muito treino", disse Medina. "Não tenho segredos em relação a isso. Ser medalhista Olímpico é minha meta e vou fazer de tudo para conseguir isso."

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