Cinco Olímpicos portugueses a seguir em Tóquio 2020

Pedro Pichardo, Fernando Pimenta, Jorge Fonseca, Auriol Dongmo e João Almeida são destaques na delegação de Portugal nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020.

Gonçalo Moreira
Foto: 2021 Getty Images

O bronze conquistado pela judoca Telma Monteiro na Rio 2016 foi a única medalha para Portugal na passada edição dos Jogos Olímpicos. Para Tóquio 2020, o Comite Olímpico de Portugal definiu objetivos mais ambiciosos: dobrar o número de medalhas, conseguir colocar 12 atletas em finais Olímpicas e 26 em semifinais.

Entre os principais momentos vividos nos Jogos por atletas portugueses o atletismo asume protagonismo, já que foi neste esporte que a nação lusitana venceu as quatro medalhas de ouro de sua história: na maratona pelas lendas Carlos Lopes em Los Angeles 1984 e Rosa Mota em Seul 1988, nos 10000m por Fernanda Ribeiro em Atlanta 1996 e no salto triplo por Nelson Évora em Beijing 2008.

Pedro Pichardo vai para Tóquio 2020 com a melhor marca mundial de 2021

Salto triplo

Poderá Pedro Pichardo voltar a passar a mítica barreira dos 18 metros? Tendo em conta que ao longo da história do salto triplo apenas cinco atletas conseguiram tal feito, o desafio colocado ao atleta luso-cubano é extraordinário, mas realista, já que Pichardo vai para Tóquio 2020 com a melhor marca mundial de 2021: saltou 17,92m durante o Memorial István Gyulai (Hungria), no mês de julho. Posteriormente, no evento da Liga de Diamante que aconteceu em Gateshead (Grã-Bretanha), Pichardo venceu com 17,50m, enquanto o colega de seleção Tiago Pereira foi 3º com recorde pessoal (17,11m).

Pedro Pichardo tem contas para ajustar com os Jogos Olímpicos, após falhar por lesão a Rio 2016. Em Tóquio 2020 haverá um novo campeão Olímpico dada a ausência do norte-americano Christian Taylor, quatro vezes campeão mundial e vencedor em Londres 2012 e Rio 2016, que num meeting este ano rompeu o tendão de Aquiles.

A grande questão no triplo é se alguém poderá ultrapassar os 18 metros, o que Pichardo já fez em 2015, saltando 18,08m em Havana, quarto melhor salto da história do triplo, onde continua a valer o recorde de Jonathan Edwards de 18,29m de agosto de 1995.

Desde 2017 que Pedro Pichardo representa Portugal, nação que no salto triplo já teve um campeão Olímpico, o experiente Nelson Évora, que será porta-bandeira em Tóquio 2020. O campeão de Beijing 2008 – com 17,67m – tem vindo a subir de forma, mas ainda não conseguiu passar os 16m na atual temporada.

A campanha ideal para Portugal seria aliar um grande resultado no salto triplo masculino a uma grande participação no concurso feminino, onde a campeã da Europa de pista coberta, Patrícia Mamona, é uma das referências. Na terceira presença em Jogos Olímpicos (13ª em Londres 2012 e 6ª na Rio 2016), Mamona cravou mesmo antes dos Jogos um novo recorde português saltando 14,66m no meeting de Mônaco da Liga Diamante, a sétima melhor marca de 2021 no triplo feminino onde apenas uma atleta ultrapassou os 15 metros este ano – a venezuelana Yulimar Rojas.

Fernando Pimenta é colecionador de medalhas

Canoagem de velocidade

O canoísta Fernando Pimenta é natural de Viana do Castelo e vai a Tóquio 2020 competir no K1 1000m, disciplina onde é vice-campeão europeu. Atleta experiente e já com duas participações em Jogos Olímpicos – em Londres 2012 no K2 1000m foi 2º com Emanuel Duarte e na Rio 2016 competiu no K1 1000m terminando em 5º e no K4 1000m fazendo parte do quarteto que finalizou na 6ª colocação – em Tóquio 2020 Fernando Pimenta espera voltar a subir ao pódio no maior evento esportivo do mundo.

Sua trajetória na canoagem de elite tem sido notável. Fernando Pimenta é colecionador de medalhas, tendo 104 conquistadas em competições internacionais. Em Tóquio 2020 o foco será totalmente no K1 1000m, onde era favorito há cinco anos, acabando por sair sem medalha. Para o Japão leva a certeza de que continua a ser candidato aos primeiros lugares, basta recordar o Europeu da Polônia, no início de junho, onde só ficou atrás do húngaro Bálint Kopasz, repetindo-se o resultado do Campeonato do Mundo ganho por Kopasz e onde Pimenta foi bronze atrás do tcheco Josef Dostál.

Portugal espera ainda uma boa participação da equipe liderada por Emanuel Silva (prata em Londres 2012 com Pimenta) que compete no K4 500m.

O histórico da canoagem portuguesa em Jogos Olímpicos se iniciou em Seul 1988, mas o primeiro finalista foi José Garcia, em Barcelona 1992. O ponto de viragem aconteceu em Londres 2012 com a dupla Pimenta-Duarte, mas também com uma performance coletiva de ótimo nível já que os seis canoístas presentes atingiram suas respetivas finais.

Jorge Fonseca foi campeão do mundo ganhando todos combates por “ippon”

Judô

Para o judoca Jorge Fonseca o regresso ao Japão traz grandes memórias: foi na capital nipônica que o atleta se tornou o primeiro português campeão do mundo em qualquer categoria do judô, em 2019!

No Mundial de 2021, em Budapeste, que serviu de preparação para Tóquio 2020, o atleta voltou a dominar na categoria de até 100kg. Jorge Fonseca foi campeão do mundo ganhando todos combates por “ippon” e derrotando o sérvio Aleksandar Kukolj, marcando território para os Jogos Olímpicos.

O judô tem permitido a Portugal viver momentos Olímpicos inesquecíveis. A primeira medalha foi o bronze de Nuno Delgado (até 81kg) em Sydney 2000 e a segunda chegou na Rio 2016 por Telma Monteiro (até 57kg). Se Delgado há muito está retirado, Monteiro continua a ter o estatuto de rainha dos tatames portugueses e mesmo que tenha sido apenas 7ª no Mundial mostrou sua personalidade forte assumindo que em Tóquio 2020 ia lutar pelas medalhas.

Telma Monteiro vem de conquistar o sexto título europeu – frente à eslovena Kaja Kajzer – e chegou às 15 medalhas em Campeonatos da Europa. Seu auge chegou na Rio 2016 ao vencer o combate contra a romena Corina Caprioriu por “yuko”, o que permitiu a Portugal somar a 24ª medalha em Jogos Olímpicos. Para trás ficaram o 12º lugar de Atenas 2004, o 9º em Beijing 2008 (competindo em até 52kg); depois veio a mudança de categoria de peso e o 17º em Londres 2012 até chegar no bronze na Rio 2016. Breve nota também para Anri Egutidze, que vai competir em até 81kg, a mesma categoria que deu o bronze em Sydney 2000, onde o georgiano naturalizado português pode brigar pelas medalhas após o bronze no Campeonato do Mundo.

Jorge Fonseca foi campeão mundial pela primeira vez no Japão
Foto: Photo by Kiyoshi Ota/Getty Images

A fé de Auriol Dongmo move montanhas

Arremesso de peso

A história de Auriol Dongmo tem vários capítulos. O primeiro começa em Ngaoundéré, Camarões, onde sempre demonstrou qualidades atléticas acima da média, competindo em esportes como handebol e basquete. Bicampeã continental, representou o país africano na Rio 2016 terminando na 12ª colocação graças a um lançamento de 16,99m.

Em julho de 2020 passa a representar Portugal e aqui entramos no segundo capítulo do livro da vida de Auriol Dongmo. Mulher de fé, devota de Nossa Senhora de Fátima, a atleta se muda em 2017 para a cidade de Leiria - mesmo ao lado do santuário de Fátima - e passa a ser treinada por Paulo Reis no Centro Nacional de Lançamentos.

A fé de Auriol Dongmo move montanhas. Atleta promissora, passar a trabalhar em uma realidade competitiva orientada para colocar os atletas a competir com a elite mundial. A evolução das marcas que valeram a conquista do Campeonato de Portugal é fruto desse trabalho: de 17,90m em 2019 para 19,53m em 2020!

Logo na primeira competição com Portugal vence o título Europeu em pista coberta com um lançamento de 19,34m – foi a primeira vez que o atletismo português venceu a medalha de ouro no peso! Desde então tem conseguido manter uma eficácia tremenda: na temporada de 2020 competiu 17 eventos vencendo 16. Chega a Tóquio com três vitórias em 2021 e fortes possibilidades de colocar Portugal terá na final do peso.

  • Em maio venceu a rodada britânica da Liga Diamante com 19,08m em Gateshead
  • Seguiu-se o vice-campeonato europeu na Polônia onde ficou pelos 18,74m
  • Em junho voltou às vitórias no Meeting Iberoamericano com 19,75m, a quarta melhor marca de 2021 no peso
  • No regresso a Portugal ganhou em finais de junho o Meeting Maia Cidade do Desporto com 19,17m
  • O último evento antes de Tóquio foi na Liga de Diamante, lançando 19,05m para superar a norte-americana Maggie Ewens por um centímetro, mas distante dos 19,26m da neozelandesa Valerie Adams

A favorita ao ouro é Valerie Adams, que já depois de ganhar em Estocolmo foi ao Festival de Lançamentos Kamili Skolimowskiej (Polônia) lançar 19,75m – melhor marca em um ciclo Olímpico onde a bicampeã Olímpica em Beijing 2008 e Londres 2012, vice-campeã na Rio 2016, teve que fazer uma pausa na carreira para ser mãe duas vezes.

Auriol Dongmo deverá identificar-se com a trajetória de Valerie Adams, já que depois de uma ascensão meteórica na carreira com marcas acima dos 17 metros, em 2018 fez uma pausa por maternidade. A lançadora continuou a sua caminhada e no regresso à competição bateu o recorde português em três ocasiões, em 2020.

A briga pelas medalhas no peso deve ser extraordinária. A chinesa Gong Lijao lidera em 2021 com 20,39m seguida pelas norte-americanas Jessica Ramsay (20,12m) e Raven Saunders (19,96m).

Auriol Dongmo em ação no Campeonato da Europa de 2021
Foto: Photo by Adam Nurkiewicz/Getty Images for European Athletics

João Almeida: estrela em ascensão no ciclismo mundial

Ciclismo

O ciclismo é um desporto popular em Portugal e tradicionalmente atinge seu apogeu no mês de agosto, quando se realiza a Volta a Portugal em bicicleta, um "blockbuster" típico do verão português aproveitando a paragem do campeonato nacional de futebol.

Ao contrário de outros tempos, as maiores estrelas do ciclismo luso já não correm a Volta a Portugal, mas sim eventos internacionais nas maiores equipes do WorldTour, a primeira divisão do ciclismo. João Almeida e Nelson Oliveira correm nesse nível, por duas das melhores equipes do mundo, a belga Deceuninck-QuickStep e a espanhola Movistar, respetivamente.

Nelson Oliveira é contrarrelogista e foi 4º no Campeonato do Mundo de 2017. Faz parte dos 10 melhores especialistas do pelotão. Participou em duas edições dos Jogos Olímpicos, sendo 7º no contrarrelógio na Rio 2016 após se estrear em Londres 2012 com a 18ª colocação. Sua presença se justifica não apenas pelo que pode fazer no esforço contra o cronômetro, mas por ser multifacetado: ciclista talentoso em percursos com dureza, como é o caso de Tóquio, capaz de obter um resultado individual, mas sobretudo de cuidar de um líder como faz na Movistar. É uma tarefa difícil, vocacional, já que o papel de gregário de luxo está reservado àqueles que sabem colocar as possibilidades de vitória do líder às suas próprias aspirações.

Chamado a liderar Portugal em Tóquio 2020 está o jovem João Almeida, estrela em ascensão no ciclismo mundial. Aos 22 anos de idade, o atleta natural de Caldas da Rainha se assumiu como um dos melhores corredores de corridas por etapas do mundo, reunindo duas características fundamentais: é um talento natural no contrarrelógio e um bom escalador. O arsenal de João Almeida o coloca com opções de medalha tanto na prova de contrarrelógio como no evento de fundo, ambos marcados por percursos de dureza poucas vezes vista nos Jogos Olímpicos. Em 2021, João Almeida foi 6º no Giro de Itália, confirmando o 4º posto de 2020 e mostrando ter capacidade para discutir a vitória nos Jogos com eslovenos, espanhóis, belgas e italianos.

A seleção de estrada portuguesa fez um período de preparação específica para Tóquio no velódromo de Anadia sob a supervisão de técnicos e fisiologistas, fazendo vários blocos de treinamento em câmara térmica para facilitar a adaptação do organismo às altas temperaturas e índices de humidade esperados na prova Olímpica.

O ciclismo deu uma medalha Olímpica a Portugal. Aconteceu em Atenas 2004, na prova de fundo, e na época foi uma surpresa já que Sérgio Paulinho era um atleta ainda por explodir no nível internacional e se juntou em fuga ao italiano Paolo Bettini, um dos favoritos. A colaboração entre ambos foi perfeita e Sérgio Paulinho ficou com uma histórica prata que marcou o início de uma década de êxito para um dos melhores gregários do pelotão – vencedor de várias grandes voltas trabalhando para líderes como Alberto Contador ou Alexander Vinokurov, este último campeão Olímpico em Londres 2012.

Uma nota ainda para duas atletas que também vão representar Portugal no ciclismo e que fazem história para o país: Maria Martins é uma jovem de 22 anos e a primeira atleta a representar o país no ciclismo de pista em Jogos Olímpicos; já Raquel Queirós tem 21 anos e em Tóquio 2020 também se torna na pioneira do mountain bike feminino como a primeira mulher portuguesa a participar no cross-country.

Joao Almeida será o líder de Portugal no ciclismo de estrada
Foto: Federação Portuguesa de Ciclismo