Campeão de Tóquio 2020 Roglic vence Vuelta a Espanha

Esloveno que venceu o ouro no contrarrelógio nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 conquistou a Vuelta pela terceira vez consecutiva. Primoz Roglic (Jumbo-Visma) bateu Enric Mas (Movistar) e Jack Haig (Bahrain-Victorious).

Gonçalo Moreira
Foto: Michael Steele/Getty Images

Primoz Roglic tem há muito o seu nome inscrito na história do ciclismo, sobretudo desde que se tornou campeão Olímpico do contrarrelógio em Tóquio 2020, dominando o percurso de 44,2km com final no Fuji International Speedway. Nesse dia o esloveno superou o neerlandês Tom Dumoulin por 1:01s e o australiano Rohan Dennis por 1:04s mostrando estar num patamar acima da concorrência, enquanto a luta pela medalha de prata teve quatro ciclistas separados por quatro segundos.

Após os Jogos Olímpicos, o líder da Jumbo-Vista – time neerlandês de Roglic – colocou como objetivo vencer a Vuelta a Espanha pela terceira vez consecutiva e apresentou-se para a última competição de três semanas da temporada com uma autoridade impressionante. Roglic abriu e fechou a prova com vitórias nos contrarrelógios, vencendo ainda duas chegadas montanhosas.

O triunfo coloca Roglic a par de grandes nomes da história do ciclismo de estrada que também têm três Vueltas no histórico:

  • Tony Rominger em 1992, 1993 e 1994
  • Roberto Heras em 2000, 2003, 2004 e 2005
  • Alberto Contador em 2008, 2012 e 2014

Em caso de vitória no próximo ano, Primoz Roglic poderia igualar o recorde absoluto de Heras de quatro edições da Vuelta conquistadas e melhorar o mesmo já que as venceria consecutivamente.

O rival mais próximo de Roglic foi o espanhol Enric Mas, que já tinha sido 2º na Vuelta a Espanha em 2018 e conseguiu igualar esse resultado. O líder da Movistar, a única equipa da Espanha no WorldTour, máxima categoria do ciclismo de estrada, salvou a honra espanhola em uma edição que deixa dois registos preocupantes: foi a primeira vez desde 1996 que um espanhol não ganhou uma etapa na Vuelta e outro dado inédito na história do ciclismo é o facto de nenhum ciclista espanhol ter vencido qualquer etapa nas três grandes Voltas – Giro de Itália, Tour de France e Vuelta a Espanha.

A fechar o pódio ficou um estreante, o australiano Jack Haig, que conseguiu um 3º lugar brilhante e que só foi garantido no último dia de perfil montanhoso que teve chegada ao Alto Castro de Herville, na Galiza, região norte da Espanha na fronteira com Portugal. Nunca Haig tinha ficado no top 3 de uma grande Volta, seu melhor resultado era 19º na Vuelta de 2018.

Primoz Roglic vence a etapa 17 do Tour de France 2017. Desde então foi 2º no Tour 2020 e venceu três vezes a Vuelta a Espanha
Foto: 2017 Getty Images

Fabio Jakobsen foi a história da Vuelta

Ainda que Roglic seja o nome principal da 76ª edição da Vuelta a Espanha, não foi do esloveno o maior exemplo de superação.

A 5 de agosto de 2020, Fabio Jakobsen estava em um hospital na Polônia, em coma induzido pela gravidade dos ferimentos. Um padre chegou a visitar o quarto do atleta neerlandês. Horas antes tinha sofrido um terrível acidente em Katowice quando circulava a mais de 90km/hora. O primeiro a chegar foi o colega Florian Sénéchal que o viu sufocar no próprio sangue e realizou uma manobra que lhe permitiu respirar. Depois veio o helicóptero de resgate, a chegada ao hospital e 48 horas entre a vida e a morte.

Fabio Jakobsen sofreu fratura do crâneo, nariz, maxilar, dentes, dedos. Ficou com a cara irreconhecível. Ficou ainda com danos nos pulmões, nervos das cordas vocais, ombro e glúteos. Em teoria, a carreira de um dos mais rápidos sprinters do pelotão mundial deveria ter terminado nesse momento. Só ter sobrevivido foi um milagre.

Parece incrível que 13 meses depois tenha vencido três etapas da Vuelta a Espanha, superado os 3388km do percurso entre Burgos e Santiago de Compostela e ainda dominado a classificação por pontos para o ciclista mais regular. Resulta curioso que a redenção de Fabio Jakobsen tenha acontecido no regresso da Vuelta à cidade que acolhe peregrinos de todo o mundo, gente que se desloca a pé ou em bicicleta pelo famoso caminho de Santiago, que termina junto à magnífica catedral da cidade da Galiza.

“Parece que foi rápido, mas foi tudo muito lento. Um longo caminho de volta, muito tempo, muito esforço, muita gente, médicos, cirurgiões... a vitória também é deles”, disse o sprinter da Deceuninck-QuickStep ao diário El País.

Fabio Jakobsen foi a história da Vuelta 2021, mas aos 25 anos tem toda uma carreira para colecionar novos capítulos a um já preenchido livro de ouro.

Aos 25 anos Fabio Jakobsen já venceu cinco etapas em duas edições da Vuelta a Espanha