Atleta Olímpico refugiado acolhido pelo Brasil, Popole Misenga dá o recado: é preciso acreditar

Judoca congolês da Equipe Olímpica de Refugiados vive no Brasil desde 2013 e se prepara para os Jogos Tóquio 2020 em 2021.

Virgílio Franceschi Neto
Foto: Foto: Elsa (Getty Images, 2016)

Natural de Bukavu, na República Democrática do Congo, fronteira com a Ruanda, o judoca Popole Misenga foi no início de junho convocado pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) para integrar a Equipe Olímpica de Refugiados para os Jogos de Tóquio 2020 em 2021. É o único deles que vive no Brasil, com o pedido de asilo após disputar o Mundial da modalidade, no Rio de Janeiro, em 2013. Aos 29 anos de idade, vai para a sua 2ª edição de Jogos Olímpicos, após ter feito parte da primeira delegação do time de Refugiados, na Rio 2016.

Sua história de vida impressiona. Teve a mãe assassinada durante a Segunda Guerra do Congo, conflito que matou aproximadamente 6 milhões de pessoas e deixou 500 mil refugiados. Quando tinha 9 anos, para escapar da violência, ficou na mata por uma semana, até ser levado para a capital, Kinshasa, em um centro para crianças resgatadas. Foi lá que começou a praticar o judô.

A partir dali, a história seria diferente.

"Quando você é criança, você precisa ter uma família para te dar instruções sobre o que fazer e eu não tive uma. O judô ajudou a me trazer serenidade, disciplina, comprometimento, tudo".

-Popole Misenga, sobre o judô, para o Olympics.com

Popole Misenga em combate contra Donghan Gwak (KOR) durante os Jogos Rio 2016
Foto: 2016 Getty Images

Trajetória

Em 2010 foi 3º lugar no Campeonato Africano para menores de 20 anos. Destaque do judô congolês, participou do mundial da modalidade no Rio de Janeiro, em 2013, quando pediu asilo político no Brasil. Alegava que os treinadores na África submetiam os atletas a maus tratos em caso de baixo desempenho nas competições, além de usar os recursos dos competidores a fim de fazer turismo quando dos torneios internacionais.

Passou a viver em Brás de Pina, na cidade do Rio de Janeiro. Em 2014 o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), concedeu-lhe o status de refugiado. Popole frequentava a Caritas, órgão da Arquidiocese do Rio de Janeiro responsável por trabalho de atendimento a refugiados, que acabou estabelecendo o contato com Flávio Canto, medalhista de bronze no judô nos Jogos Atenas 2004, idealizador do Instituto Reação, organização que promove o desenvolvimento humano e integração social através do esporte, e especificamente, do judô. Lá pode voltar a praticar a modalidade que tanto ama, instruído por Geraldo Bernardes, treinador que formou, além de Canto, a campeã Olímpica na Rio 2016, Rafaela Silva.

Popole treina com recursos provenientes de Bolsas para Atletas Refugiados da Solidariedade Olímpica. Por meio desta iniciativa, os atletas refugiados são encorajados a participar dos Jogos, com o objetivo também de de ajudar os atletas a construir carreiras através do esporte. Popole foi selecionado para fazer parte de uma equipe que contra com 52 atletas refugiados que recebem esta bolsa.

"Eu fiquei tão feliz quando soube que fui selecionado para a Equipe Olímpica de Refugiados do COI. Me dá força no tatame representar as milhões de pessoas que tiveram de deixar seus lares, seus países. O judô me salvou".

-Popole Misenga, sobre a sua 1ª convocação para a Equipe Olímpica de Refugiados na Rio 2016, para o site da Federação Internacional de Judô

Popole hoje retorna a uma edição de Jogos mais maduro e mais brasileiro.

“Da música, eu gosto mais de samba. Na comida, eu adoro açaí, fruta que eu não posso ver que dá vontade de comer. Mas gosto muito também de sopa de ervilha. Quando está chovendo ou frio, eu já aviso minha mulher que eu vou querer um caldo”.

-Popole Misenga, sobre o país que o acolheu, para o site do Comitê Olímpico do Brasil.

Ao mesmo tempo, tem consciência do papel que possui na sociedade ao fazer parte da Equipe Olímpica de Refugiados.

"Então, sempre que pensar em mim, acredita. Mesmo com tudo que passei, consegui chegar. Tem que escutar, observar, ter paciência, aguentar, resistir. Eu era nada, mas hoje não sou mais que ninguém. Não é porque você é refugiado que você não pode fazer uma coisa. Acredite em si mesmo".

-Popole Misenga, para o site do Comitê Olímpico do Brasil

Sobre a Equipe Olímpica de Refugiados

Segundo a ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados), é considerado refugiado "alguém que foi forçado a fugir de seu país por causa de perseguição, guerra ou violência".

A Equipe Olímpica de Refugiados foi estabelecida pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) em outubro de 2015, a fim de proporcionar a atletas de elite afetados pela crise dos refugiados, uma chance de se qualificar e participar dos Jogos Olímpicos. Os integrantes desta equipe acabam sendo um símbolo de esperança para os refugiados de todo o planeta e servem para conscientizar a opinião pública sobre a crise internacional dos refugiados.

Segundo a 4ª edição da publicação Refúgio em Números, divulgada em julho de 2019, o Brasil reconheceu oficialmente em 2018 um total de 1.086 refugiados de diversas nacionalidades. Ao todo país atingiu a marca de 11.231 refugiados oficialmente reconhecidos pelo Estado. Entretanto o número de pedidos de refúgio é bastante superior.