Tóquio 2020: Alison dos Santos apenas batido pelo fenômeno Warholm em Mônaco

Após cravar duas vezes o recorde sul-americano em três dias, Alison dos Santos foi segundo em Mônaco, na Liga de Diamante. Conheça sua história de vida.

Gonçalo Moreira
Foto: Photo by Patrick Smith/Getty Images

Alison dos Santos 400m com barreiras continua voando em direção a Tóquio 2020 e na etapa da Liga de Diamante realizada em Mônaco levou a prata. Dessa vez não teve “personal best” – Alison dos Santos não melhorou sua marca como fez na passada semana em duas provas, cravando novo recorde sul-americano – e o paulista fechou o evento com Alison em 47,51 (depois dos 47,37 no domingo anterior). Sem surpresa, o recordista mundial e favorito ao ouro em Tóquio 2020, o norueguês Karsten Warholm, venceu em Mônaco com o tempo de 47,08 e o estônio Rasmus Magi fechou o pódio com 48,83.

Com três recordes sul-americanos nos 400m com barreiras cravados já essa temporada em eventos da Liga de Diamante – primeiro 47,57 em Doha, Catar, depois 47,38 em Oslo, Noruega, e finalmente 47,34 em Estocolmo – o paulista chegará em Tóquio 2020 com a terceira melhor marca de 2021.

O nível dos tempos tem sido extraordinário no atual ciclo Olímpico. Basta olhar para os dois atletas mais rápidos do que Alison dos Santos:

  • Karsten Warholm (NOR): bicampeão mundial, detentor sete das 15 melhores marcas da história da disciplina e desde agora recordista dos 400m com barreiras após correr, em Oslo (Noruega), perante seu público, em 46,70 – marca que resistia desde Barcelona 1992 quando o americano Kevin Young chegou ao ouro com o tempo de 46,78 na primeira vez em que a barreira dos 47 segundos foi quebrada. O recorde mais antigo da pista no setor masculino cai finalmente, algo que nem referências como o campeão Olímpico de Sydney 2000 e Beijing 2008, Angelo Taylor, ou o campeão da Rio 2016, Kerron Clement, conseguiram no seu auge.
  • Rai Benjamin (EUA): é o terceiro mais rápido da história nos 400m com barreiras após correr nas seletivas em 46,83. O nova-iorquino que passou a juventude entre o ambiente urbano da icônica cidade da Costa Este dos Estados Unidos e a tranquilidade da ilha de Antígua, obrigou os americanos a o resgatarem para o "Team USA" após dominar o circuito universitário, conquistando o título da NCAA correndo em 47,02. Rai Benjamin é treinado pelo campeão Olímpico dos 400m lisos em Barcelona 1992, Quincy Watts, que nessa edição venceu ainda com os EUA no revezamento 4x400m, e pela campeã Olímpica dos 100m com barreiras em Atenas 2004, Joanna Hayes.

As performances de Alison dos Santos na Liga de Diamante permitem ao brasileiro reforçar o estatuto de candidato às medalhas em Tóquio 2020. O corredor já está mais rápido do que rivais como Kyron McMaster (Ilhas Virgens Britânicas – 47,50), que na prova de Estocolmo partiu muito forte e acabou rebentando ao ponto de nem terminar o evento.

O Piu, como é conhecido, tem apenas 21 anos de idade, mas é um talento consolidado. Melhor atleta Pan-Americano e 7º na estreia em um Mundial sênior, deixando para trás momentos inesquecíveis como a medalha de bronze no Mundial sub-20 de 2018 ou o ouro no Campeonato do Mundo no revezamento misto sub-18 em 2017.

Alison Dos Santos no Mundial sub-20, em Tampere (Finlândia), 2018 
Foto: Photo by Charlie Crowhurst/Getty Images for IAAF

Graduação de Alison dos Santos veio na consagração de Karsten Warholm

Alison dos Santos cresceu! E cresceu tanto que em Tóquio 2020 se focará somente nos 400 m com barreiras, onde a chance de medalha é real, optando por não acumular desgaste ao serviço de um revezamento 4x400 misto vice-campeão no Mundial realizado em maio de 2021. Quem viu não esquece: Alison dos Santos recebeu o bastão com o Brasil na 5ª posição e fez uma volta supersônica que deu a medalha de prata.

Excluindo a brilhante performance do revezamento misto, Tóquio 2020 pode consolidar o renascimento do Brasil na velocidade, adormecida desde que o revezamento masculino 4x100m ganhou a prata em Sydney 2000 e o bronze nos Jogos Olímpicos de Beijing 2008.

Para perceber a ambição em Tóquio 2020, recuamos no tempo, até à estreia do paulista de São Joao da Barra em Campeonatos do Mundo na categoria sênior.

Com apenas 19 anos, Alison dos Santos se apresenta em uma final de 400 m com barreiras rodeado pelos três atletas no ativo que já baixaram de 47 segundos: Karsten Warholm, Noruega, bicampeão mundial, Ray Benjamin, EUA, e Abderrahman Samba, Catar. A final nem é das mais rápidas – Warholm vence em 47,42 –, mas ajuda Alison dos Santos a correr em 48,28, recorde sul-americano sub-20 que o paulista melhora pela sétima vez nesse ano!

Em retrospectiva, a performance do brasileiro no Mundial de 2019 teria valido o título na edição de 2017: nesse ano Karsten Warholm foi 0,07 centésimos de segundo mais lento do que Alison dos Santos (48,28 vs 48,35), o que mostra que o nível está mais alto do que nunca nos 400m com barreiras.

“Estava muito contente por estar na final do Campeonato do Mundo com 19 anos de idade e partilhar a pista com três dos homens mais rápidos da história. Encarei como uma oportunidade para melhorar a minha própria performance. Das três estrelas na prova, diria que o meu estilo é mais parecido ao do Karsten Warholm. Gosto realmente dele e da sua personalidade. Gostaria de me tornar um personagem no esporte como ele.”

Alison dos Santos à página World Athletics.

A graduação de Alison dos Santos veio na consagração de Kartsen Warholm.

Alison Dos Santos: recordista sul-americano dos 400 metros com barreiras
Foto: Photo by Stephen Pond/Getty Images for IAAF

Capacidade de superação vem do berço

Qualquer atleta Olímpico ultrapassa distintas etapas no seu crescimento esportivo. No caso de Alison dos Santos, a capacidade de superação vem do berço e não porque tenha nascido em uma família privilegiada, mas porque ainda bebê viveu algo que mudaria sua vida.

Aos 10 meses de idade, um acidente doméstico envolvendo a avó e uma frigideira com óleo fervendo resultaram em quatro meses no hospital após Alison dos Santos sofrer queimaduras de terceiro grau.

Ainda hoje, cada vez que olha no espelho, o atleta do Pinheiros, treinado por Felipe de Siqueira da Silva desde a adolescência, pode observar cicatrizes em diversas zonas do corpo. As cicatrizes contam o passado, mas não o presente nem o futuro. Não contam como, após recuperar totalmente das lesões, Alison dos Santos se interessou pelo judô, apenas para se dedicar ao atletismo a partir de 2013 na sua cidade de São Joaquim da Barra.

Os 2,00 metros de altura, a coordenação exímia, o esforço e um talento natural para correr rápido superando obstáculos fizeram o resto.